quinta-feira, 3 de julho de 2008

Rendição à criaturinha



O aparelho médico, untado ao gel peculiar, passeia sobre a barriga grávida da futura e radiante mãe. Escorado ao pé da porta que separa o escritório do consultório, me via observando aquela cena e, como que especulando e torcendo, imaginava o ser que, pouco mais seis meses dali, emergiria para a vida.
Parecia simplório para o médico identificar, numa tela de um monitor, algumas partes do corpo humana daquela criaturinha – confesso que, apesar de apurar os sentidos, abrir bastante os olhos e chegar um pouco mais perto do monitor, não conseguia vislumbrar as indicações do médico, pois, a meu juízo, a imagem não passava de uma massa disforme, pulsando.
É claro, desde o conhecimento da concepção tive minha preferência quanto ao sexo da criaturinha, embora, no fundo, sempre pedia para que ela apenas nascesse com muita saúde, qualquer que fosse sua identidade sexual. Por evidência, eu continuava ali, escorado ao pé da porta, na torcida, esperando que o desígnio de Deus casasse com meu desejo...
E o médico, continuando no seu labor, começou a identificar a cabeça, o coração, a perninha, o braço – eu, de olho na imagem e sem saber o que era o quê, continuava voando, mas na expectativa... Sem maiores delongas, e adentrando na genitália daquele serzinho, o médico deu seu veredicto contumaz:
- Papai, comece a comprar as bolas, pois tem um cacho de côco entre as perninhas dessa criaturinha...
A reação inicial do futuro pai, que não comunga com a quase unanimidade dos demais candidatos a essa responsabilidade, foi a de balançar a cabeça, abandonar o recinto e concluir, cético, que Deus escreve certo por linhas tortas, já que o casamento entre o desígnio e desejo não se realizou.
O primeiro mês de vida se revelava desafiador: choro intermitente quase toda noite, sem que pudéssemos, como marinheiros de primeira viagem, fazer quase nada, afinal, não existe comunicação com um serzinho dessa idade. Entretanto, o jeitinho de dormir e a paz que daí saía amenizavam e adocicavam nosso espírito no dia-a-dia...
Nas proximidades de completar seus primeiros dois meses, lembro das famosas cólicas vesperais entre cinco e seis e trinta horas de toda tarde, sempre resultando em choros intermináveis, incontroláveis e sem remédio, exceto o tempo... Mas quando o sono chegava, a mágica se realizava, e lá estava a criaturinha na sua paz espiritual, exalando uma áurea invejável!
Pouco mais de três meses depois já era possível que a gente conseguisse ser visto, ser notado e, de certa forma, correspondido numa comunicação mínima, pois surgiram os primeiros sorrisos e com eles a grata compensação pelos dias anteriores de vigília.
Depois do quarto, quinto mês, o tempo voa, e já se conseguia vislumbrar algumas características e tendências: parece com o pai, para alguns; parece com mãe, para outros; tem o ronco do sono da mãe; tem o peito como dos homens da família da mãe; é organizado, como o pai; é zangado, como pai ou como a mãe? ; gosta ou não de fazer carinho; come muito e gosta de tudo, ou de quase tudo; adora “bater perna na rua”, como a mãe; e por aí vai, levando e somando toda nossa atenção, admiração e carinho...
E quando menos se esperava, muitas visitas médicas depois, ele já havia levado os primeiros tombos na busca dos primeiros passos, ou balbuciou sons indecifráveis que teimávamos em identificá-los como um pedir, um querer, um dizer, um mamá, um papá, um vovô, um vovó, um cocó, um loló, um quinquia, um eiti, um uuava, um bu, um abra etc.
Mais de um e menos de dois anos depois, em uma de suas “emburradas” chorando no colo da mãe sem querer dormir, eu ouvir suas palavrinhas mágicas:
- Papá! Papá!
Corri ao seu alcance, tirei-o do colo da mãe e ele se calou, sugando o “momom” no seu prazeroso nhonhonho...
O tempo passou (e está passando), e Deus realmente escreveu certo por linhas tortas, pois, se Ele não me deu uma Sofia, conseguiu, prazerosamente, me prender ao Bernardo Gregório.
FIM

terça-feira, 1 de julho de 2008

Cama feita

À noite, te procuro no leito...
Muito mais forte bate
A solidão no meu peito.

Vida vã

Trabalho em excesso,
Amor sem sexo,
Vida sem nexo.

domingo, 29 de junho de 2008

Ano de 1965, presumo


O tempo passou.
Se vi, não dei conta;
Se dei conta,
Não vi mas aqui estou.
Esse mesmo,
Da direita para esquerda,
De calção preto e camisa branca.

sábado, 28 de junho de 2008

Amor proibido

Idade medida,
vida prometida;
Mulher comedida,
vida proibida

Miopia

No tempo passado, dizia ela:
o amor era em demasia;
Agora descobri que ontem e hoje
sofro, pra variar, de miopia.

Assim seja

Fim de uma espera;
era, por evidência, enfim,
em mim, aquele que deseja;
seja, assim, uma breve espera!

Descaso

Expresso uma certa impetuosidade,
e ela, na sua retidão, deveras,
reconhece "que não é isso que esperas",
mas, nadinha, além da pura amizade.

Celular

Triiimmm...em plena reunião! Indignação!
- Alô, Maria! Dessa vez o que tu quer?
- Patroa, faço arroz com carne ou baião?

"Amorcite"

Amor explícito,
te deixa todo distraído;
já o amor implícito,
só te resta todo corroído
.

Feedback

Você me pergunta por que fujo?
Para evitar que me troques, novamente,

Por mais um porre do dito cujo!

Obrigado, Manuel Bandeira


Trabalho pouco, esforço-me menos ainda.
Mas gostaria de inventar palavras
Que traduzissem a indolência mais profunda
E mais cotidiana.
Não inventei, mas gostaria, o verbo preguiçar.
Intransitivo:
Preguiço, preguiça.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Perdido

Na multidão busco, sem ilusão,
aquela, dentre muitas, ainda,
que aprisionará este coração!

Simples

Menina, me dá um beijo.
Só assim, matarás, de uma só vez,
Minha sede, fome e desejo !

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Receita de cass(ç)ador

A Receita Federal
da terceira região
realizou um treinamento
pra tratar da isenção
com auditores do Ceará
do Piauí e Maranhão.

Foi escalado um instrutor
com muita preparação
conhecido por dr. Caubi
o cassador de isenção.

Originário da previdência
onde foi analista durão
até um pedido de madre Tereza
recebeu um sonoro não
e a assessora Cristina
referendou a decisão.

A representante legal
de uma sagrada instituição
de cunho beneficente
mas que sofrera exclusão
chegou a ele chorando
pedindo compaixão.

Em nome das criancinhas
que a gente sempre cuidou
peço clemência dr. Caubi
pois tudo desandou
depois do seu parecer
que nossa isenção cassou
reveja com o coração
essa sua decisão
que tudo precipitou.

Porém Caubi impenitente
não quis saber de explicação
ela disse esse desalmado
parece não ter coração
por isso vai ser cortado
da corrente de oração
com data retroativa
pra ele não tem perdão.

Quando chegar na outra vida
ele vai ter uma surpresa
São Pedro vai lhe tratar
com toda aspereza
pois negou até pedido
da Santa Madre Tereza.

Ele foi mentor intelectual
da lei 9732
por isso em seu texto
a adin assim propôs
favor dar ciência ao Caubi
para deixar de exigir
o que essa lei dispôs.

Encerro esta brincadeira
que é pura descontração
parabenizando o Caubi
pela preciosa instrução
para banir a pilantropia
do benefício da isenção.

Fortaleza, 24/08/07
Sérgio Guará