Moramos inicialmente na Rua João Gayoso, a dois quarteirões da Praça da Bandeira, local aonde existia o zoológico de Teresina, posteriormente, este foi transferido para o atual Zoobotânico, localizado no bairro Socopo. A casa era, ao mesmo tempo, residência e depósito de óleos lubrificantes do posto de gasolina em que meu pai trabalhava, pois essa casa era também de propriedade do patrão dele. Entre as caixas de óleo nós brincávamos de esconde-esconde, de bandido e mocinho.
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
sábado, 22 de agosto de 2009
Chico Panelada
Outra lembrança dessa época beira o ridículo: tinha, talvez, por volta de uns oito ou nove anos, e me atormentava o fato de passar pelas imediações da casa do Chico Panelada – era um vizinho nosso, um ano mais velho, de corpo um pouco mais avantajado que o meu e o do meu irmão mais novo; é que o mesmo, sempre que possível, nos ameaçava bater ou coisa que o valha, e, medrosos como éramos, evitávamos esse desagradável encontro, sempre, e, ao apontarmos na rua, ficávamos à espreita da presença do Chico Panelada, resultando, muitas vezes, em se ter de apelar para as canelas... Mas, que eu lembre, nunca apanhei, até mesmo porque sempre corríamos, pois o medo de enfrentá-lo era bem maior.
O medo do dentista
Sinceramente, não posso culpar, jamais, minha mãe pelo sorriso que tenho, pois seria isto uma injustiça extrema. Explico: como se fosse hoje, lembro daquela ladainha maternal diária azucrinando meus ouvidos com a sentença que, à época, me soava como castigo, qual seja, “hoje é dia de dentista”. Quantos subterfúgios usei para não ir a tal encontro, e quantas vezes torci para que o dentista não comparecesse! Enquanto isso, as cáries iam consumindo a beleza de um sorriso... É duro se reconhecer o que o medo de um dentista pode causar às pessoas, e mais duro ainda é se providenciar recursos financeiros para tentar minimizar os efeitos desse medo... O tempo passou, e as seqüelas ficaram!
Umas malandragens no primário
A lembrança das aulas do primário me remete ao Grupo Escolar Monsenhor Roberto Lopes, que funcionava no mesmo prédio aonde existe o Colégio Clóvis Salgado. Lá eu cursei minhas primeiras letras; lá eu me revelei um aluno um tanto quanto medíocre, pois, quase sempre, mesmo estudando numa sala com uma irmã, todos os dias eu fugia antes do término da aula, usando o artifício de sair por debaixo de uma cortina que isolava a sala de aula do corredor, e, quando chegava em casa e minha mãe perguntava pela irmã, respondia que ela tinha ficado para trás, conversando com suas colegas... O resultado da esperteza foi notório e previsível: reprovação no 2º ano primário!
A primeira paixão
Por último, não deixo de relembrar aquilo que considero a primeira paixão (se é que um garoto de oito ou nove anos pode assim se sentir, apaixonado). A suposta paixão tinha nome e endereço: morava na mesma rua, numa casa quase em frente à minha, e atendia pelo nome de Justina. De minha casa, escondido no jardim atrás de alguma coisa, ficava à sua espreita, esperando a oportunidade de vê-la. De constrangedor me vem à memória o fato de que na rua em que morávamos não passava o carro do lixo, o que nos obrigava a levar o resíduos domésticos a um local próximo, uns trezentos metros; ocorre que, algumas vezes, meu pai me escolhia para tal fim, implicando, assim, em transitar pela rua com uma lata de querosene cheia de lixo na cabeça– e aí residia meu tormento, pois, mais do que nunca, antes de tomar o rumo da rua, eu dava uma geral pelas imediações para ver se a menina dos meus olhos não estava na porta ou passeando por ali; confesso que fiquei vermelho algumas vezes quando o encontro foi inevitável, pois, para os meus pais, não havia qualquer desculpa para a não execução do serviço naqueles momentos... Era um tormento! Ainda quando morávamos em Parnaíba, a família da Justina se mudou para Belo Horizonte, e dela nunca mais tive notícias, como também nunca soube se ela nutria algum sentimento por mim – talvez tudo tenha sido meu primeiro sentimento platônico!
O medo do dentista
Sinceramente, não posso culpar, jamais, minha mãe pelo sorriso que tenho, pois seria isto uma injustiça extrema. Explico: como se fosse hoje, lembro daquela ladainha maternal diária azucrinando meus ouvidos com a sentença que, à época, me soava como castigo, qual seja, “hoje é dia de dentista”. Quantos subterfúgios usei para não ir a tal encontro, e quantas vezes torci para que o dentista não comparecesse! Enquanto isso, as cáries iam consumindo a beleza de um sorriso... É duro se reconhecer o que o medo de um dentista pode causar às pessoas, e mais duro ainda é se providenciar recursos financeiros para tentar minimizar os efeitos desse medo... O tempo passou, e as seqüelas ficaram!
Umas malandragens no primário
A lembrança das aulas do primário me remete ao Grupo Escolar Monsenhor Roberto Lopes, que funcionava no mesmo prédio aonde existe o Colégio Clóvis Salgado. Lá eu cursei minhas primeiras letras; lá eu me revelei um aluno um tanto quanto medíocre, pois, quase sempre, mesmo estudando numa sala com uma irmã, todos os dias eu fugia antes do término da aula, usando o artifício de sair por debaixo de uma cortina que isolava a sala de aula do corredor, e, quando chegava em casa e minha mãe perguntava pela irmã, respondia que ela tinha ficado para trás, conversando com suas colegas... O resultado da esperteza foi notório e previsível: reprovação no 2º ano primário!
A primeira paixão
Por último, não deixo de relembrar aquilo que considero a primeira paixão (se é que um garoto de oito ou nove anos pode assim se sentir, apaixonado). A suposta paixão tinha nome e endereço: morava na mesma rua, numa casa quase em frente à minha, e atendia pelo nome de Justina. De minha casa, escondido no jardim atrás de alguma coisa, ficava à sua espreita, esperando a oportunidade de vê-la. De constrangedor me vem à memória o fato de que na rua em que morávamos não passava o carro do lixo, o que nos obrigava a levar o resíduos domésticos a um local próximo, uns trezentos metros; ocorre que, algumas vezes, meu pai me escolhia para tal fim, implicando, assim, em transitar pela rua com uma lata de querosene cheia de lixo na cabeça– e aí residia meu tormento, pois, mais do que nunca, antes de tomar o rumo da rua, eu dava uma geral pelas imediações para ver se a menina dos meus olhos não estava na porta ou passeando por ali; confesso que fiquei vermelho algumas vezes quando o encontro foi inevitável, pois, para os meus pais, não havia qualquer desculpa para a não execução do serviço naqueles momentos... Era um tormento! Ainda quando morávamos em Parnaíba, a família da Justina se mudou para Belo Horizonte, e dela nunca mais tive notícias, como também nunca soube se ela nutria algum sentimento por mim – talvez tudo tenha sido meu primeiro sentimento platônico!
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Bois Vert Château Blanc 5.0
Parte I
Primeiros anos
É pouco provável alguém lembrar dos seus primeiros anos de vida; não fujo à regra. Tudo que sei do período dessa idade tenra, hoje, remota, é fruto das recordações de minha mãe. Ainda assim, do pouco que ouvi, apenas me martelam a consciência duas recordações: aos dois anos pesava algo em torno de quinze quilos, sendo, por isso, alcunhado pelo avô paterno (que não conheci) por “meu chumbinho”; e que, acometido pelo paratifo (doença infecciosa próxima à febre tifóide), fiquei tão fraco que o deslocamento do vento provocado pelo voo de uma galinha era suficiente para me mandar à lona – por conta da febre extremamente alta e persistente resultante dessa doença, meu médico e amigo da família sentenciou: se esse menino não morrer, vai ficar inteligente. A meu juízo, o médico acertou uma e errou a outra!
Primeiros anos
É pouco provável alguém lembrar dos seus primeiros anos de vida; não fujo à regra. Tudo que sei do período dessa idade tenra, hoje, remota, é fruto das recordações de minha mãe. Ainda assim, do pouco que ouvi, apenas me martelam a consciência duas recordações: aos dois anos pesava algo em torno de quinze quilos, sendo, por isso, alcunhado pelo avô paterno (que não conheci) por “meu chumbinho”; e que, acometido pelo paratifo (doença infecciosa próxima à febre tifóide), fiquei tão fraco que o deslocamento do vento provocado pelo voo de uma galinha era suficiente para me mandar à lona – por conta da febre extremamente alta e persistente resultante dessa doença, meu médico e amigo da família sentenciou: se esse menino não morrer, vai ficar inteligente. A meu juízo, o médico acertou uma e errou a outra!
Parte II
De Buriti dos Lopes (PI) à Parnaíba (PI)
Na visão de meu pai, nossa cidade natal já não mais permitia um desenvolvimento, quiçá, promissor à sua prole; filhos com idades entre quatro e quinze anos, pouca possibilidade de um salário mais em conta e escola precária em Buriti dos Lopes justificaram a migração para a vizinha Parnaíba, litoral do Piauí, a pouco mais de 30 km.
As casas da Rua Cel. Pacífico
Nesse período, creio, de 1962 a 1969, afloram-me várias recordações que marcaram significativamente o universo da minha memória: a primeira casa de Parnaíba (Rua Cel. Pacífico, no meio do terceiro quarteirão, do lado esquerdo, a partir da Santa Casa de Misericórdia, em direção ao Rio Igaraçu), em que meu pai, por prazer originado da cidade de Buriti dos Lopes, mantinha no quintal um pequeno curral com três cabeças de gado, de onde supria-nos a necessidade do leite (nunca gostei de leite puro, mas lembro-me que acordava cedinho para tomá-lo misturado com canela) – é interessante relembrar que, como o curral não tinha acesso ou saída diretamente para a rua, todos os dias meu pai soltava as três cabeças de gado usando a mesma porta de entrada e saída da casa, ou seja, para ir para a rua, o gado passava pela cozinha e sala da casa, até encontrar a porta de entrada/saída da casa... Nesse tempo, a rua não tinha calçamento, o que redundava num verdadeiro lamaçal durante o período das chuvas.
Na visão de meu pai, nossa cidade natal já não mais permitia um desenvolvimento, quiçá, promissor à sua prole; filhos com idades entre quatro e quinze anos, pouca possibilidade de um salário mais em conta e escola precária em Buriti dos Lopes justificaram a migração para a vizinha Parnaíba, litoral do Piauí, a pouco mais de 30 km.
As casas da Rua Cel. Pacífico
Nesse período, creio, de 1962 a 1969, afloram-me várias recordações que marcaram significativamente o universo da minha memória: a primeira casa de Parnaíba (Rua Cel. Pacífico, no meio do terceiro quarteirão, do lado esquerdo, a partir da Santa Casa de Misericórdia, em direção ao Rio Igaraçu), em que meu pai, por prazer originado da cidade de Buriti dos Lopes, mantinha no quintal um pequeno curral com três cabeças de gado, de onde supria-nos a necessidade do leite (nunca gostei de leite puro, mas lembro-me que acordava cedinho para tomá-lo misturado com canela) – é interessante relembrar que, como o curral não tinha acesso ou saída diretamente para a rua, todos os dias meu pai soltava as três cabeças de gado usando a mesma porta de entrada e saída da casa, ou seja, para ir para a rua, o gado passava pela cozinha e sala da casa, até encontrar a porta de entrada/saída da casa... Nesse tempo, a rua não tinha calçamento, o que redundava num verdadeiro lamaçal durante o período das chuvas.
Os vizinhos de mesmo nome
A segunda memória era que, para desagrado de minha mãe, nossos vizinhos do lado esquerdo eram formados por uma família que, dentre outras, possuía três pessoas com o meu mesmo nome (parece-me, Caubi pai, Caubi filho e Caubi júnior). A respeito deste nome, segundo minha mãe, sua opção inicial era batizar-me pelo nome de Bievenildo; entre um e outro, resolveu minha mãe homenagear o cantor Caubi Peixoto, e, entre ambos, eu ficaria, também, apesar de não gostar, com o que hoje atendo aos chamados, mas, admito, estaria mais conformado se a homenagem fosse para o índio de uma das obras de José de Alencar (nada contra o cantor, que, aliás, admiro).
Os álbuns de figurinhas
A segunda memória era que, para desagrado de minha mãe, nossos vizinhos do lado esquerdo eram formados por uma família que, dentre outras, possuía três pessoas com o meu mesmo nome (parece-me, Caubi pai, Caubi filho e Caubi júnior). A respeito deste nome, segundo minha mãe, sua opção inicial era batizar-me pelo nome de Bievenildo; entre um e outro, resolveu minha mãe homenagear o cantor Caubi Peixoto, e, entre ambos, eu ficaria, também, apesar de não gostar, com o que hoje atendo aos chamados, mas, admito, estaria mais conformado se a homenagem fosse para o índio de uma das obras de José de Alencar (nada contra o cantor, que, aliás, admiro).
Os álbuns de figurinhas
É dessa primeira casa que me lembro, com prazer, do contato inicial com os álbuns de figurinhas, principalmente aqueles que se referiam às coleções de times e jogadores de futebol, apesar de, à época, nossos recursos serem bastante escassos para adquiri-los, sendo a curiosidade suprida pelo acesso aos álbuns dos colegas da vizinhança, com certeza, bem mais abastados. Que emoção maior existia para aquele colega que encontrava, ao abrir um envelope de figurinhas, uma que era considerada difícil, ou quando preenchia integralmente o álbum!
O boi das festas juninas
Apesar dos parcos recursos, meu pai conseguiu juntar alguma coisa, e decidiu comprar nossa segunda moradia de Parnaíba, uma casa localizada na mesma rua, do lado direito, no segundo quarteirão após a primeira. É dessa nova residência que tenho outras recordações marcantes de minha infância. Foi nela que tracei alguns passos no que tange à arte artesanal de se produzir um boi de madeira – daquele tipo em que, nas festas juninas, sua presença é indispensável; juntando uns pedaços de paus, restos de plásticos e de roupas, pregos, tábuas, forro de palha e chifre de boi, conseguia dá uma forma que muito se aparentava com um boi das festas juninas, e fazia a festa com auxílio de meu irmão, Castelo (este, durante nossas apresentações da dança do boi, se passava pela personagem “Catirina”, responsável por atazanar o boi), pois, durante dia, saíamos a procura daquelas residências que estavam dispostas a pagar uma quantia, irrisória diga-se, para assistir, em frente às suas casas, nossas apresentações folclóricas – eu, além de “produtor” do boi, era também um dos meninos encarregado de dançar debaixo do boi, e dançava direitinho, lembro e penso!
Apesar dos parcos recursos, meu pai conseguiu juntar alguma coisa, e decidiu comprar nossa segunda moradia de Parnaíba, uma casa localizada na mesma rua, do lado direito, no segundo quarteirão após a primeira. É dessa nova residência que tenho outras recordações marcantes de minha infância. Foi nela que tracei alguns passos no que tange à arte artesanal de se produzir um boi de madeira – daquele tipo em que, nas festas juninas, sua presença é indispensável; juntando uns pedaços de paus, restos de plásticos e de roupas, pregos, tábuas, forro de palha e chifre de boi, conseguia dá uma forma que muito se aparentava com um boi das festas juninas, e fazia a festa com auxílio de meu irmão, Castelo (este, durante nossas apresentações da dança do boi, se passava pela personagem “Catirina”, responsável por atazanar o boi), pois, durante dia, saíamos a procura daquelas residências que estavam dispostas a pagar uma quantia, irrisória diga-se, para assistir, em frente às suas casas, nossas apresentações folclóricas – eu, além de “produtor” do boi, era também um dos meninos encarregado de dançar debaixo do boi, e dançava direitinho, lembro e penso!
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Bois Vert Château Blanc 5.0 (versão preliminar do 1º capítulo)
PRIMEIROS ANOS
É pouco provável alguém lembrar dos seus primeiros anos de vida; não fujo à regra. Tudo que sei do período dessa idade tenra, hoje, remota, é fruto das recordações de minha mãe. Ainda assim, do pouco que ouvi, apenas me martelam a consciência duas recordações: aos dois anos pesava algo em torno de quinze quilos, sendo, por isso, alcunhado pelo avô paterno (que não conheci) por “meu chumbinho”; e que, acometido pelo paratifo (doença infecciosa próxima à febre tifóide), fiquei tão fraco que o deslocamento do vento provocado pelo voo de uma galinha era suficiente para me mandar à lona – por conta da febre extremamente alta e persistente resultante dessa doença, meu médico e amigo da família sentenciou: se esse menino não morrer, vai ficar inteligente. A meu juízo, o médico acertou uma e errou a outra!
É pouco provável alguém lembrar dos seus primeiros anos de vida; não fujo à regra. Tudo que sei do período dessa idade tenra, hoje, remota, é fruto das recordações de minha mãe. Ainda assim, do pouco que ouvi, apenas me martelam a consciência duas recordações: aos dois anos pesava algo em torno de quinze quilos, sendo, por isso, alcunhado pelo avô paterno (que não conheci) por “meu chumbinho”; e que, acometido pelo paratifo (doença infecciosa próxima à febre tifóide), fiquei tão fraco que o deslocamento do vento provocado pelo voo de uma galinha era suficiente para me mandar à lona – por conta da febre extremamente alta e persistente resultante dessa doença, meu médico e amigo da família sentenciou: se esse menino não morrer, vai ficar inteligente. A meu juízo, o médico acertou uma e errou a outra!
domingo, 5 de abril de 2009
Desejo sem chão
Aos pulos, o coração,
Que, do alto da escada,
Procura uma paixão
E vê a vida passada...
A loucura deixar falar,
Vontade física, amassar.
Na escada, cá embaixo,
Com desejo cabisbaixo.
Menos chão e mais idade.
Da escada tomo rumo,
Aguento firme: é prumo.
É assim a crua realidade.
Que, do alto da escada,
Procura uma paixão
E vê a vida passada...
A loucura deixar falar,
Vontade física, amassar.
Na escada, cá embaixo,
Com desejo cabisbaixo.
Menos chão e mais idade.
Da escada tomo rumo,
Aguento firme: é prumo.
É assim a crua realidade.
quarta-feira, 11 de março de 2009
Tempo...
Ela brincou com o tempo
Sem se importar com seu poder.
Hoje, só um silencioso lamento
É causa, é consequência
Do seu incoerente viver.
Esqueceu de sentir
Não sabe mais como chorar
Leva a vida cantando
Revelando a si mesma
Os males de não ter amado.
Acalenta a sua dor
Com um simples calar.
Não atende aos seus gritos
E nem conhece mais
O brilho do seu próprio olhar.
Obrigado, meu alter ego
Sem se importar com seu poder.
Hoje, só um silencioso lamento
É causa, é consequência
Do seu incoerente viver.
Esqueceu de sentir
Não sabe mais como chorar
Leva a vida cantando
Revelando a si mesma
Os males de não ter amado.
Acalenta a sua dor
Com um simples calar.
Não atende aos seus gritos
E nem conhece mais
O brilho do seu próprio olhar.
Obrigado, meu alter ego
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
O tempo passado
O olhar dela não mostra o tormento
Do seu viver sem emoção
Lá vai ela por caminhos não desejados...
E sua lembrança, quiçá, a mirar
Uma fotografia que revela,
Na sua alma, a imensa solidão
Do seu estranho mundo interno,
Digladiando-se com o externo
Numa luta quase infame!
Almeja, no improvável desespero,
Uma vontade louca de fugir
Para não sei onde distante
E eliminar o vazio eterno
Da hora que o viu partir.
Do seu viver sem emoção
Lá vai ela por caminhos não desejados...
E sua lembrança, quiçá, a mirar
Uma fotografia que revela,
Na sua alma, a imensa solidão
Do seu estranho mundo interno,
Digladiando-se com o externo
Numa luta quase infame!
Almeja, no improvável desespero,
Uma vontade louca de fugir
Para não sei onde distante
E eliminar o vazio eterno
Da hora que o viu partir.
sábado, 31 de janeiro de 2009
Bois Vert Château Blanc
Em breve, muito breve, estarei postando a versão primeira de um cotidiano de cinco décadas, que terá como título "Bois Vert Château Blanc 5.0".
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Ao Cineas Santos
Como disse em postagem anterior (e como objetivo do próprio blog), o mesmo seria unicamente para publicação de algumas coisas literárias inéditas; entretanto, a exemplo da última postagem, lembrei-me do meu amigo Cineas Santos, blogueiro do "Jornal O Dia"(Teresina - PI), piauiense dos cafundós de São Raimundo Nonato, que, com propriedade, sintetizou o uso da crase da seguinte maneira:
"O amor parte à porta,
E tudo é festa.
O amor bate a porta,
E nada resta."
"O amor parte à porta,
E tudo é festa.
O amor bate a porta,
E nada resta."
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Autopsicografia
Era objetivo deste blog indicar que o mesmo se restringiria a apresentar fragmentos literários (se assim podemos considerar os escritos que aqui constam) inéditos, entretanto, o cotidiano e a intenção de mérito (aquele mais do que este) por trás de cada uma de suas criações me fez amparar no vaticínio de Fernando Pessoa (Autopsicografia), que reproduzo a seguir, e que comungo, integralmente, nas linhas e entrelinhas.
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Alter ego
Meu alter ego emudeceu
De tanto medo do que não veio a ser
E o infinito que foi ou é...
Ainda teme o por vir
Que não pode ser...
E nunca deixará de existir.
De tanto medo do que não veio a ser
E o infinito que foi ou é...
Ainda teme o por vir
Que não pode ser...
E nunca deixará de existir.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Ao meu alter ego
Um dia, uma emoção.
Tudo passa - o tempo,
As coisas do coração.
Mas estas, por certo,
Marcas em nós deixarão.
Faz-se o encontro.
Resgata-se o tempo
E resta, velado, no coração,
Quem sabe, a dor
Da paixão em ebulição.
Que me diz, meu alter ego?
O tempo passou, marcou...
Atrevo-me a dizer:
Não marcou, não passou,
Mas, simplesmente, enraizou.
É que quando te vejo,
Meu alter ego, o tempo,
Por mais que decorrido,
Não sarou, como desejo,
Este coração ferido.
Mais um dia, mais uma emoção;
Meu alter ego suspirou,
Disparou, imaginou...
E então, meu alter ego,
De onde vem tanto furor?
Tudo passa - o tempo,
As coisas do coração.
Mas estas, por certo,
Marcas em nós deixarão.
Faz-se o encontro.
Resgata-se o tempo
E resta, velado, no coração,
Quem sabe, a dor
Da paixão em ebulição.
Que me diz, meu alter ego?
O tempo passou, marcou...
Atrevo-me a dizer:
Não marcou, não passou,
Mas, simplesmente, enraizou.
É que quando te vejo,
Meu alter ego, o tempo,
Por mais que decorrido,
Não sarou, como desejo,
Este coração ferido.
Mais um dia, mais uma emoção;
Meu alter ego suspirou,
Disparou, imaginou...
E então, meu alter ego,
De onde vem tanto furor?
terça-feira, 14 de outubro de 2008
A mulher de vida confortável
Das muitas pessoas que conheço, poucas têm a vida mais confortável do que minha prima. Sem muita riqueza material, muito menos ainda financeira, baliza sua vida pelo cotidiano mais que apropriado de uma cidade do interior: comer, bater perna na rua, fofocar e dormir – vale dizer, tudo sem qualquer tipo preocupação.
Uma pequena cronologia da vida de minha prima me permite constatar sua origem relativamente farta, principalmente se considero o padrão das necessidades supridas das demais pessoas que formam o universo das que a rodeiam.
De pais com alguma posse, na verdade, minha prima pouco ou quase nada teve que fazer para prover sua própria providência de subsistência, porém, reconheço que a mesma, presentemente e já desde uns doze anos para trás, vive às expensas de uma aposentadoria de um salário mínimo oriunda de sua condição de professora primária, embora, diga-se, sem nunca ter manuseado sequer uma barra de giz! Explico: fruto do famoso “jeitinho brasileiro”, quando na atividade de professora primária, minha prima sempre arrumou uma maneira, com a conivência de seus chefes, de nunca se ausentar da secretaria da escola em que lecionava, ou seja, já por essa época, ficavam os seus supostos alunos a verem navios...
É certo que minha prima soube escolher suas amizades; e isto noto quando levo em conta aquela residência em que, costumeiramente, cotidianamente e diariamente, ela busca suprir suas necessidades atuais de comer, beber, prosear, dar pitaco e, com certeza, de querer fazer as vezes de dona do pedaço...
Da porta da rua para dentro de sua casa não vislumbro suas atividades, mas permito-me imaginar a trivialidade de suas ações: acordar, levantar, assear-se, arrumar-se e pronto – rua. Vejo-me vendo-a, na sua pisada levemente despreocupada, em direção à sua “menina dos olhos”, parada obrigatória para suas três refeições diárias principais (café, almoço e janta), e, talvez, para as demais também (lanches matutino, vespertino e noturno). De longe, de minha calçada, dou um alô: “e aí, coroa véia!”, e arrisco, contido entre os meus parentes, um sussurro velado: “já vai, eh!” Em resposta, sempre, um aceno cordial.
Às vezes, da porta da casa do meu primo, sigo seus passos, observo seu deslocamento, destaco seu capacete castanho claro achatado e concluo que, como a mim, aos outros também saltam os olhos o estilo de vida dela. É que os comentários, maliciosos ou não, partem, inclusive, de seus próprios parentes de segundo grau, que não se cansam de apontar a leveza da falta de preocupação com o porvir de tal criatura.
De todo, apesar dessa leveza, minha prima tem suas virtudes, merecendo destacar aquela que lhe faz ser uma pessoa engraçada em face de suas “tiradas” embutidas com muitos palavrões ou coisas que o valham – creio que seja por isso que as pessoas que lhes são próximas não conseguem tê-la como um ser intragável; bem ao contrário, ao que sei, excluindo-se as escaramuças políticas que divide toda cidade pequena, sua aceitação é pacífica entre os seus conterrâneos.
Creio não ser uma vida elogiável, mas, com certeza, para alguns, invejável, afinal, quem, dentre nós outros mortais, não gostaria de acordar, passar o dia e dormir sem qualquer preocupação com o porvir, com o que comer, com o que beber?
Então, a quem interessar possa, elogia-a, inveje-a ou atire-a a primeira pedra!
Uma pequena cronologia da vida de minha prima me permite constatar sua origem relativamente farta, principalmente se considero o padrão das necessidades supridas das demais pessoas que formam o universo das que a rodeiam.
De pais com alguma posse, na verdade, minha prima pouco ou quase nada teve que fazer para prover sua própria providência de subsistência, porém, reconheço que a mesma, presentemente e já desde uns doze anos para trás, vive às expensas de uma aposentadoria de um salário mínimo oriunda de sua condição de professora primária, embora, diga-se, sem nunca ter manuseado sequer uma barra de giz! Explico: fruto do famoso “jeitinho brasileiro”, quando na atividade de professora primária, minha prima sempre arrumou uma maneira, com a conivência de seus chefes, de nunca se ausentar da secretaria da escola em que lecionava, ou seja, já por essa época, ficavam os seus supostos alunos a verem navios...
É certo que minha prima soube escolher suas amizades; e isto noto quando levo em conta aquela residência em que, costumeiramente, cotidianamente e diariamente, ela busca suprir suas necessidades atuais de comer, beber, prosear, dar pitaco e, com certeza, de querer fazer as vezes de dona do pedaço...
Da porta da rua para dentro de sua casa não vislumbro suas atividades, mas permito-me imaginar a trivialidade de suas ações: acordar, levantar, assear-se, arrumar-se e pronto – rua. Vejo-me vendo-a, na sua pisada levemente despreocupada, em direção à sua “menina dos olhos”, parada obrigatória para suas três refeições diárias principais (café, almoço e janta), e, talvez, para as demais também (lanches matutino, vespertino e noturno). De longe, de minha calçada, dou um alô: “e aí, coroa véia!”, e arrisco, contido entre os meus parentes, um sussurro velado: “já vai, eh!” Em resposta, sempre, um aceno cordial.
Às vezes, da porta da casa do meu primo, sigo seus passos, observo seu deslocamento, destaco seu capacete castanho claro achatado e concluo que, como a mim, aos outros também saltam os olhos o estilo de vida dela. É que os comentários, maliciosos ou não, partem, inclusive, de seus próprios parentes de segundo grau, que não se cansam de apontar a leveza da falta de preocupação com o porvir de tal criatura.
De todo, apesar dessa leveza, minha prima tem suas virtudes, merecendo destacar aquela que lhe faz ser uma pessoa engraçada em face de suas “tiradas” embutidas com muitos palavrões ou coisas que o valham – creio que seja por isso que as pessoas que lhes são próximas não conseguem tê-la como um ser intragável; bem ao contrário, ao que sei, excluindo-se as escaramuças políticas que divide toda cidade pequena, sua aceitação é pacífica entre os seus conterrâneos.
Creio não ser uma vida elogiável, mas, com certeza, para alguns, invejável, afinal, quem, dentre nós outros mortais, não gostaria de acordar, passar o dia e dormir sem qualquer preocupação com o porvir, com o que comer, com o que beber?
Então, a quem interessar possa, elogia-a, inveje-a ou atire-a a primeira pedra!
sábado, 27 de setembro de 2008
Un jour dans ma vie

7:15h. O porteiro não me olha e não recebe meu bom dia; abro o portão e saio. Vejo as secretárias domésticas puxando os cachorrinhos das patroas – estas, por certo, “adotam” os animais, mas não assumem as responsabilidades da criação, delegando àquelas. Imagino que algumas secretárias, com o devido “banho de loja”, teriam melhor sorte, o que seria o azar dos porteiros, zeladores, bombeiros etc. Sigo meu caminho com a cautela de olhar para frente, para trás, e concluo não haver ninguém suspeito – é a precaução mínima de uma cidade grande, com todas as suas mazelas e os perigos em cada esquina. No cruzamento observo o trânsito, atravesso a rua e me encontro ao lado de uma escola infantil – penso que logo logo estarei em igual condição dos pais de agora, parando seus carros, descendo com seus filhos e suas mochilas e os entregando à educação privada, pois da pública há muito não se conta e nem se espera muita coisa. Vejo certa pressa das pessoas a pé (às vezes, a minha própria) em direção às suas obrigações, e, no trânsito, os mais apressados ainda, tentam, por falta de educação automobilística, "empurrar" os carros da frente com o dedo na buzina, já então, antecipando a chegada do estresse que o acompanhará no resto do dia. No meio do quarteirão e nas imediações dos locais mais concorridos, com a flanela na mão ou no ombro, sobressai a apropriação privada da via pública – por mais que entenda a situação econômica dessas pessoas, quase sempre me recuso, quando abordado, a bancar, por valor mínimo que seja, a oferta forçada desse tipo de “trabalho”. Continuo meu caminho. Condiciono-me a vê as coisas belas ainda existentes no percurso, a exemplo de um enorme e belo pé de caju, com suas folhas verdíssimas e já com a floração à vista, tempo em que aproveito para imaginá-lo daqui a dois meses, com seus cajus maduros amarelos, quem sabe, vermelhos... Chego ao cruzamento com uma avenida bastante movimentada e, na inexistência de semáforo, apuro meus sentidos para atravessá-la. Percebo um carrinho de venda de tapioca estacionado sobre a calçada, e há concorrência pelo consumo desse produto nordestino – observo o prazer das pessoas em saborear, por um real, um cafezinho com tapioca – é o café da manhã de cada um. Atravesso o cruzamento e, do meu lado direito, vejo um hospital, e imagino as dores, os sentimentos e as tristezas dos que lá se encontram, entretanto, sem descuidar de vislumbrar a alegria daqueles que retornam aos seus lares com saúde. Caminho a passos medidos, sem os medir. Ouço o barulho intenso dos carros e algumas buzinadas, apesar da existência do hospital. Aproveito a sombra imensa de várias árvores semelhantes aos oitizeiros e a brisa fresca que vem do mar, o que ameniza a caminhada de pouco mais de cinco quarteirões. Apraz-me um pouco notar a urbanização arquitetônica recente da cidade, com seus prédios de lojas e apartamentos cada vez mais arrojados, diferenciados e bonitos, diga-se. Percorro mais um quarteirão, me aproximo de outro cruzamento movimentado; espero, fiscalizo a vizinhança (nada suspeito), olho com atenção, meço a distância do carro mais próximo e me aventuro na travessia, sem problemas. O prédio do local de trabalho já está à minha vista, e meu estado de espírito e consciência crítica denotam-lhe o sentido do dia: às vezes, como um local de reputação a se destacar, outras, um simples elefante branco. Ouço o barulho de alguém gritando, assobiando, gesticulando e sinalizando, e, sem maiores dificuldades, o identifico como outro dono de quarteirão a querer “pastorar” os carros, desta feita, com mais afinco, mais propriedade e, com certeza, como mais “dono do pedaço”. Na esquina, alguém se achou no direito de explorar seu próprio meio de vida comercial, sem o patrocínio ou permissão do Poder Público – na bodega “móvel” encontram-se alguns tipos de salgadinhos, de sucos e de refrigerantes, além, claro, do café e do leite, e, ao que parece, existe freguesia fixa. À frente da entrada do prédio, olho o relógio e constato a precisão de minha obrigação, além daquela que me faz ser identificado por um crachá para adentrá-lo. Quando não necessito de dinheiro, vou direto ao elevador, dou bom dia aos colegas e me sinto, sem explicação, um tanto quanto inconfortável relativamente à presença daqueles dentro do elevador. Chego ao quarto andar, abro a porta, dirijo-me à sala de trabalho, não sem antes abrir a pasta da freqüência, procurar meu nome e carimbar: 7:30, 11:30, 13:30, 17:30, rubrica. Confesso: no tempo necessário a fazer esse carimbo, meu mundo gira em torno de perguntas atormentadoras, a exemplo de, por que isto, para que isto, é isto mesmo o que quero, isto farei amanhã novamente,... Sem respostas, acomodo-me à minha mesa. Os colegas chegam e com eles os papos de cada dia. Alguns dos colegas, comedidos; um outro, de alto e bom tom, não se cansa de usar a primeira pessoa para exaltar seus feitos presentes e passados, mas, nem por isto, deixa de ser uma pessoa bastante significante; um outro, esqueço. Passa o tempo, às vezes trabalho, outras, nem tanto...
11:30h. Deu minha hora de almoço. Desço. O desconforto do elevador continua me sendo presente – preferia descer sozinho ou, no máximo, com pessoas com bastante afinidade. Guardo o crachá. Sigo em frente. O cotidiano da rua continua sem muitas alterações, mas noto a pressa acentuada das pessoas, o trânsito intenso e o calor de um sol de 38 graus centígrados, amenizado, na sombra, pela brisa marítima alencarina. Retorno aproveitando as sombras dos prédios e das coberturas improvisadas dos pontos comerciais. A sombra dos oitizeiros refresca meu corpo. O carrinho de tapioca já não se encontra na esquina. Com o porta-malas aberto, um carro apresenta suas variedades alimentares para um almoço rápido e barato, mas sem que se possa comprovar sua qualidade e higiene – é um modus operandi de sobrevivência, fruto da falta de emprego formal. Os flanelinhas continuam alugando as vagas públicas. Na escola infantil os pais esperam a saída dos filhos, estes, pelo lado de dentro da escola, esbanjam energia aos pulos, gritos e brincadeiras. Aperto a sirene, entro.
13:15h. Apesar da preguiça latente, dirijo-me ao segundo tempo do trabalho, sob um sol escaldante. Minha preocupação passa pela minha própria vizinhança, por isso sigo observando os transeuntes das proximidades – nada se apresenta a merecer desconfiança. A escola infantil permanece com sua atividade normal: crianças chegando, brincando, correndo, gritando. O sol é abrasador e o vento, na sombra, é fresco e ameniza. Os flanelinhas agem, se apresentam e esperam um trocado, ainda que não solicitado seus préstimos. O pé de caju me enche os olhos e dá, sob suas folhas, guarida aos transeuntes que retornam ao trabalho. A avenida continua com tráfego intenso, o que requer mais atenção na sua travessia. Atravesso e me vejo caminhando, por pouco mais de cem metros, sob a dádiva das sombras dos oitizeiros. Espero o sinal fechar, mas, algumas vezes, não tenho paciência para tanto, e, correndo, cruzo uma rua, tento desviar do sol apressando o passo e procurando a sombra dos prédios, mais uma vez. Entro por outra rua e avisto o prédio do local de trabalho. Apresso as passadas para atravessar uma rua movimentada, mas os meus olhos estão nos carros vindo em minha direção. Chego do outro lado, são e salvo. O flenelinha “dono” do quarteirão encontra-se abrigado na sombra, à espera de seus “clientes” forçados.
Adorno meu pescoço com o crachá, entro, dirijo-me ao elevador e subo pelo elevador com o mesmo sentimento inconfortável. Aproximo-me da porta da sala de meu trabalho; está trancada, embora com um servidor assistindo televisão pelo lado de dentro; uso minha chave, abro e dou um alô ao servidor. Sento à minha mesa, acesso à internet e vejo as últimas notícias do Brasil e do mundo. Trabalho. Meus colegas chegam, conversam e trabalham também.
17:30h. Enfim, o dia passou. Desligo tudo e sigo o caminho da saída, do elevador, da rua. Já não existe mais o flanelinha agitado, buscando seus “clientes”. Na rua a brisa é fresca, a caminhada, sob esse ponto de vista, é prazerosa, mas continuo, na proximidade da escuridão, a ligar minhas antenas quanto aos transeuntes suspeitos. Percorro a avenida movimentada com a acuidade de sempre. As pessoas parecem cansadas, e os motoristas, por qualquer segundo parado em face do carro da frente, acham que a buzina resolve tudo. O local do carrinho da tapioca deu lugar ao carrinho do “churrasquinho de gato” – nova freguesia circunda o vendedor. Ao passar pela escola infantil imagino que as crianças de hoje, como as de outrora, são o futuro de qualquer país; aproveito para abrir um sorriso para algumas delas, que, ainda com energia, esperam seus pais. Atravesso a última rua, aperto a sirene do prédio, entro e fecho a portão. C’est un jour dans ma vie.
11:30h. Deu minha hora de almoço. Desço. O desconforto do elevador continua me sendo presente – preferia descer sozinho ou, no máximo, com pessoas com bastante afinidade. Guardo o crachá. Sigo em frente. O cotidiano da rua continua sem muitas alterações, mas noto a pressa acentuada das pessoas, o trânsito intenso e o calor de um sol de 38 graus centígrados, amenizado, na sombra, pela brisa marítima alencarina. Retorno aproveitando as sombras dos prédios e das coberturas improvisadas dos pontos comerciais. A sombra dos oitizeiros refresca meu corpo. O carrinho de tapioca já não se encontra na esquina. Com o porta-malas aberto, um carro apresenta suas variedades alimentares para um almoço rápido e barato, mas sem que se possa comprovar sua qualidade e higiene – é um modus operandi de sobrevivência, fruto da falta de emprego formal. Os flanelinhas continuam alugando as vagas públicas. Na escola infantil os pais esperam a saída dos filhos, estes, pelo lado de dentro da escola, esbanjam energia aos pulos, gritos e brincadeiras. Aperto a sirene, entro.
13:15h. Apesar da preguiça latente, dirijo-me ao segundo tempo do trabalho, sob um sol escaldante. Minha preocupação passa pela minha própria vizinhança, por isso sigo observando os transeuntes das proximidades – nada se apresenta a merecer desconfiança. A escola infantil permanece com sua atividade normal: crianças chegando, brincando, correndo, gritando. O sol é abrasador e o vento, na sombra, é fresco e ameniza. Os flanelinhas agem, se apresentam e esperam um trocado, ainda que não solicitado seus préstimos. O pé de caju me enche os olhos e dá, sob suas folhas, guarida aos transeuntes que retornam ao trabalho. A avenida continua com tráfego intenso, o que requer mais atenção na sua travessia. Atravesso e me vejo caminhando, por pouco mais de cem metros, sob a dádiva das sombras dos oitizeiros. Espero o sinal fechar, mas, algumas vezes, não tenho paciência para tanto, e, correndo, cruzo uma rua, tento desviar do sol apressando o passo e procurando a sombra dos prédios, mais uma vez. Entro por outra rua e avisto o prédio do local de trabalho. Apresso as passadas para atravessar uma rua movimentada, mas os meus olhos estão nos carros vindo em minha direção. Chego do outro lado, são e salvo. O flenelinha “dono” do quarteirão encontra-se abrigado na sombra, à espera de seus “clientes” forçados.
Adorno meu pescoço com o crachá, entro, dirijo-me ao elevador e subo pelo elevador com o mesmo sentimento inconfortável. Aproximo-me da porta da sala de meu trabalho; está trancada, embora com um servidor assistindo televisão pelo lado de dentro; uso minha chave, abro e dou um alô ao servidor. Sento à minha mesa, acesso à internet e vejo as últimas notícias do Brasil e do mundo. Trabalho. Meus colegas chegam, conversam e trabalham também.
17:30h. Enfim, o dia passou. Desligo tudo e sigo o caminho da saída, do elevador, da rua. Já não existe mais o flanelinha agitado, buscando seus “clientes”. Na rua a brisa é fresca, a caminhada, sob esse ponto de vista, é prazerosa, mas continuo, na proximidade da escuridão, a ligar minhas antenas quanto aos transeuntes suspeitos. Percorro a avenida movimentada com a acuidade de sempre. As pessoas parecem cansadas, e os motoristas, por qualquer segundo parado em face do carro da frente, acham que a buzina resolve tudo. O local do carrinho da tapioca deu lugar ao carrinho do “churrasquinho de gato” – nova freguesia circunda o vendedor. Ao passar pela escola infantil imagino que as crianças de hoje, como as de outrora, são o futuro de qualquer país; aproveito para abrir um sorriso para algumas delas, que, ainda com energia, esperam seus pais. Atravesso a última rua, aperto a sirene do prédio, entro e fecho a portão. C’est un jour dans ma vie.
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