sábado, 28 de junho de 2008

Amor proibido

Idade medida,
vida prometida;
Mulher comedida,
vida proibida

Miopia

No tempo passado, dizia ela:
o amor era em demasia;
Agora descobri que ontem e hoje
sofro, pra variar, de miopia.

Assim seja

Fim de uma espera;
era, por evidência, enfim,
em mim, aquele que deseja;
seja, assim, uma breve espera!

Descaso

Expresso uma certa impetuosidade,
e ela, na sua retidão, deveras,
reconhece "que não é isso que esperas",
mas, nadinha, além da pura amizade.

Celular

Triiimmm...em plena reunião! Indignação!
- Alô, Maria! Dessa vez o que tu quer?
- Patroa, faço arroz com carne ou baião?

"Amorcite"

Amor explícito,
te deixa todo distraído;
já o amor implícito,
só te resta todo corroído
.

Feedback

Você me pergunta por que fujo?
Para evitar que me troques, novamente,

Por mais um porre do dito cujo!

Obrigado, Manuel Bandeira


Trabalho pouco, esforço-me menos ainda.
Mas gostaria de inventar palavras
Que traduzissem a indolência mais profunda
E mais cotidiana.
Não inventei, mas gostaria, o verbo preguiçar.
Intransitivo:
Preguiço, preguiça.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Perdido

Na multidão busco, sem ilusão,
aquela, dentre muitas, ainda,
que aprisionará este coração!

Simples

Menina, me dá um beijo.
Só assim, matarás, de uma só vez,
Minha sede, fome e desejo !

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Receita de cass(ç)ador

A Receita Federal
da terceira região
realizou um treinamento
pra tratar da isenção
com auditores do Ceará
do Piauí e Maranhão.

Foi escalado um instrutor
com muita preparação
conhecido por dr. Caubi
o cassador de isenção.

Originário da previdência
onde foi analista durão
até um pedido de madre Tereza
recebeu um sonoro não
e a assessora Cristina
referendou a decisão.

A representante legal
de uma sagrada instituição
de cunho beneficente
mas que sofrera exclusão
chegou a ele chorando
pedindo compaixão.

Em nome das criancinhas
que a gente sempre cuidou
peço clemência dr. Caubi
pois tudo desandou
depois do seu parecer
que nossa isenção cassou
reveja com o coração
essa sua decisão
que tudo precipitou.

Porém Caubi impenitente
não quis saber de explicação
ela disse esse desalmado
parece não ter coração
por isso vai ser cortado
da corrente de oração
com data retroativa
pra ele não tem perdão.

Quando chegar na outra vida
ele vai ter uma surpresa
São Pedro vai lhe tratar
com toda aspereza
pois negou até pedido
da Santa Madre Tereza.

Ele foi mentor intelectual
da lei 9732
por isso em seu texto
a adin assim propôs
favor dar ciência ao Caubi
para deixar de exigir
o que essa lei dispôs.

Encerro esta brincadeira
que é pura descontração
parabenizando o Caubi
pela preciosa instrução
para banir a pilantropia
do benefício da isenção.

Fortaleza, 24/08/07
Sérgio Guará

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O galeto mímico




Estávamos nós, eu e meu marido, fazendo um tour pela Europa, precisamente pela Suíça (Spiez, Interlaken, Berna e Zurique), Holanda (Amsterdam), Bélgica (Bruxelas e Brugges) e França (Paris), entre os dias 7 e 22 de setembro de 2007, quando aconteceu o fato a seguir relatado.
O passe de trem comprado por nós, aqui no Brasil (eurail pass, de 15 dias) realmente facilita o trânsito por vários países da Europa, dentre os quais, os acima referenciados. Após transitar pela Suíça e pela Holanda, resolvemos partir para Bruxelas, e de lá, pela proximidade, esticamos nosso passeio até a bela e pequenina cidade de Brugges, também na Bélgica.
Fizemos um belo tour a pé pelas ruas de Brugges, partindo da estação de trem, tempo em que conhecemos várias ruas, ruelas, praças, igrejas e canais, estes, que caracterizam, por excelência, o turismo nesta aconchegante cidade.
Pois bem, como disse anteriormente, o nosso tour redundou em se “passar sebo nas canelas” e se visitar, o quanto possível e enquanto a força física agüentasse, os pontos turísticos da cidade; neste esforço, visitamos a Torre do Campanário Belfry (marco da cidade desde os anos 1300), a Basílica do Sangue Sagrado (aonde existe uma urna contendo, supostamente, gotas coaguladas do sangue de Cristo), a Prefeitura (datada do final do século XIV e início do século XV) e o Lago do Amor (Minnewater Park).
Ao pé da letra, diria que batemos muito as pernas, num ir e vir constante... Assim, nada mais natural que o cansaço e a fome, a partir de certo tempo rodado (e que rodado!), passassem a prevalecer e arrefecer os ânimos, direcionando-nos a procurar um local para se fazer uma boquinha.
Mais umas passadas e nos deparamos com uma feirinha bem ao estilo de “veja, experimente e compre”; era tipicamente um mercado a céu aberto, com predominância de venda de roupas novas e usadas, barraquinhas de comes e bebes, e outros produtos típicos da região, a exemplo do delicioso chocolate belga.
Ao nos depararmos com um espaço vazio em um banco da pracinha do local da feirinha, meu marido não titubeou em sentar e arranhar seu francês de seis meses corridos, lançando ao ar seu estado de cansaço: je suis fatigué. Pronto! Sobrou para mim a missão de buscar a resolução do outro problema, o de matar a fome.
Percorrendo as barraquinhas de alimentos, deparei-me com uma que me interessava, visualizando nesta vários tipos de grelhados, a meu juízo, todos apetitosos. Então, restava-me manifestar, na língua local (francês ou belga), o desejo de transacionar com os barraqueiros. Bem, aí residiu o problema, pois sendo o nó francês ou belga, sequer me arrisquei a desatá-lo.
A fome nos arma de jeitos e trejeitos, mas mesmo assim, não conseguia identificar ao vendedor o grelhado que queria saborear...Era um “apontar” para aquele – não (com a cabeça e com os dedos negando); aquele outro – não; e por aí tentávamos chegar a um acordo, e nada!
Folheando um mini dicionário de francês, verifiquei a palavra porco e apontei para o vendedor, escusando-me de comprar tal grelhado; entretanto, não sei porque motivo, este não me entendia, tempo em que buscou ajuda através de mais dois outros vendedores, mas estes somente serviram para aumentar a “torre de Babel”.
Como uma idéia salvadora, lembrei-me de apelar para imitação do irracional grelhado pretendido. Foi quando, fechando as mãos, colocando os braços mais ou menos na forma de um “V” e os abrindo e fechando em direção ao corpo, consegui traduzir para o entendimento da língua francesa ou belga o desejo saciar o famoso galeto grelhado...
O resultado mais elementar do “cocorococó” mímico foi o ingresso imediato em curso de língua, não a francesa ou a belga, mas aquela que nos faz entender, presumo, em qualquer lugar do mundo, a inglesa – isto porque nem do “chicken” eu me lembrava...

FIM

O efeito do álcool no galego

Se a vida não me permitisse viver em comunidade, quer entre patrícios, quer entre outros estrangeiros, com certeza, o tempo me seria bastante ingrato. Viveria, quem sabe, numa “comunidade de Robinson Crusoé" em constantes movimentos nômades... O que se dizer, então, quando esta mesma vida me oferece a possibilidade de interação mútua, uma convivência mais estreita entre conterrâneos que, por força do destino, nos coloca longe de nossas origens, mas que, infelizmente, por desejos banais decorrentes da fraqueza carnal ou espiritual, termina em desabono das condutas morais antes vislumbradas?
Quando estou longe de minhas origens, em terras estrangeiras, a experiência me leva a buscar, na medida do possível, amizades com pessoas que, pelo menos, falam a nossa língua, visando, com isto, talvez, diminuir um pouco a ausência mais amiúde da terra natal; desejo, de início e, a partir daí, somente "matar a saudade" da sonoridade da língua. Entretanto, com passar do tempo, essa amizade desenvolve-se no sentido de uma relação mais próxima, diária, cordial, assistencial e, às vezes, por sermos brasileiros com características bem definidas no que tange aos laços fraternais, redunda essa relação num vínculo quase familiar, daí trazermos as pessoas para nosso recanto mais íntimo, nosso lar.
Conterrâneas que conheci na rotina do dia-a-dia da cidade longe da Pátria (mercado, ônibus, estação de trem, shows, rua etc), trouxe para dentro do meu lar, muitas vezes, embora apenas após um papo trivial, mas na esperança de, essencialmente, se ter, quem sabe, uma ajuda mútua, um ombro amigo, um conforto espiritual, ou mesmo, como se diz mais comumente, "para se trocar figurinhas".
Então, com o passar do tempo e a convivência mais estreita, sem muitas dificuldades, quando menos espero, estou dividindo com essa conterrânea a intimidade do meu lar: esta é minha casa, este é meu marido, este é meu filho, minhas coisas; aqui eu vivo, limpo, cozinho, lavo, cuido do meu filho, resumindo, faço às vezes da casa. Meu marido trabalha, sai cedo da manhã e volta somente à noite, fuma e bebe socialmente nos finais de semana; meu filho estuda; enfim, vivemos em paz, com saúde e a comodidade que Deus nos deu.
Talvez tenha ocorrido um pouco de excesso de confiança e de cordialidade de minha parte quando, sem procurar conhecer mais amiúde a respeito da conterrânea, ou mesmo por pensar que o fato da origem comum pudesse nos levar a concluir pela idêntica procedência do caráter moral, a trouxe, como se diz, "de supetão", à convivência do lar de minha família.
Se até o presente momento a verdade não se revelara, é porque o tempo não fora ainda suficiente a desmascarar a face imoral e pervertida que então se escondia nas entranhas mais perversas da natureza humana dessa conterrânea.
Bem ou mal, por conveniência ou comodidade material, ou pela busca de quem a sustente, ou, ainda, por pura fraqueza moral e espiritual, encontra-se a dita conterrânea casada e com filhos a criar. Identifiquei em sua fachada uma pessoa que tem também seus problemas de ordem material, que busca melhores condições de vida (o que, talvez, tenha motivado a casar com um estrangeiro, sem que tenha tido, quiçá, o sentimento próprio para tanto), e que, sem nenhuma discrição, é dada aos prazeres do álcool.
Todavia, a característica da hospitalidade brasileira e sua junção com a possibilidade de estender um ombro amigo à conterrânea, me fez convidá-la a frequentar mais vezes meu lar. Trocamos idéias, jogamos conversa fora, brincamos; ofereci-lhe uns lanches, uns drinques e, não mais tardar, até mesmo alguns pernoites, pois a casa em que dormem três, acomoda quatro, cinco...
Em um desses dias fatais, uma noite mais ou uma noite a menos não iria fazer diferença. Conversamos muito, comemos alguma coisa, bebemos o que tinha para beber, e as horas iam passando... No decorrer do tempo, supostamente, o corpo já não respondia aos impulsos da cabeça – é o álcool que começava a predominar sobre os sentidos. A conversa da conterrânea convidada já atropela, em parte, sua ação, que deveria ser comedida.
Na sala, na minha ausência momentânea, segue-se o assédio impróprio, indecoroso, desrespeitador, indecente, da conterrânea sobre o meu marido. Há a oferta verbal disso, daquilo e de outras coisas mais. E se já não bastassem as coisas ofertadas com palavras, eis que surge, como numa vitrine, a exposição visual das partes (mercadorias), que, diga-se, um tanto quanto depreciadas pelo tempo e, principalmente, pela falta de dignidade da conterrânea “comerciante”. A noite chega. É hora de acomodar as pessoas. Acomodaram-se...
O dia sucedeu a noite, amanheceu – nada mais trivial!
Ao amanhecer, toda dona de casa que se preza faz uma devida faxina nas dependências de seu lar: varre-se e limpa-se aqui, ali e acolá. O lixo acumulado de um dia para outro é, por demais, conhecido. Difícil mesmo é se procurar entender o aparecimento, após a virada dessa noite, de um preservativo ainda um tanto quanto umedecido...
Busco justificativas, mas encontro, no máximo e com muito senso de humanismo, apenas explicações.
Diz-se que a noite é uma criança, mas, às vezes, ela dá toda uma indicação de ter sido testemunha de um conluio de um pseudo-casal pervertido.
A suposta desculpa de que "na calada de uma noite regada a álcool as coisas acontecem", parece funcionar somente na mente daquelas pessoas que sequer resguardam uma moral mínima que se espera de uma pessoa casada e que fora convidada a adentrar no recinto familiar de um lar respeitado, ainda que antes aquela tenha aparentado possuir esse respeito, por si e pelos seus acolhedores. Lêdo engano!
A consideração e a amizade até então construída se esvaiu pelos mais ínfimos espaços possíveis, motivados que foram pela deselegância, desonestidade, oferecimento barato do próprio corpo em troca de uma aventura relâmpago puramente carnal e, principalmente, pelo excesso de confiança que depositamos nas pessoas que acolhemos como supostas "amigas".
A consciência (se é que se pode dizer da existência de uma consciência, neste caso) dessa conterrânea casada deveria avaliar a causa, extensão e efeito de sua ação, sabidamente, no mínimo, impensável. Reúno, aqui, alguns pontos que, de certa forma, podem auxiliar nessa sua autocrítica, a saber: devia ela pensar no prazer que tem uma legítima brasileira em ajudar uma conterrânea, abrindo as portas de sua casa, apresentando seu marido, seu filho, participando-a de um pouco de sua vida individual e a familiar; devia ela avaliar se o prazer momentâneo puramente carnal vale mais que alguns anos de convivência fraternal; aonde ela deverá buscar um novo ombro para chorar suas mazelas, pois conheço muito bem a frieza do estrangeiro; será que ela nunca pensou na possibilidade de uma responsabilização criminal ou civil decorrente de seu ato; e, se a vulgaridade de seu ato chegar ao conhecimento de seu marido, qual será sua reação?; será que tamanha desqualificação de conduta moral tinha o condão inicial de causar unicamente a desarmonia de uma família até então perfeita?; e, o que pensar, então, dos desígnios de Deus?
Questiono-me se tal atitude poderia ser uma tanto quanto relevada, quando tenho conhecimento que essa conterrânea, talvez, por imperativo do destino, teve a condição de ser privilegiada por uma educação que lhe oportunizou uma educação a ponto de não lhe permitir tamanha desventura; no entanto, sabendo-se que a dita concubina sempre alegou a paternidade de um suposto médico e que sempre teve anseio por uma formação de nível superior, então, com esse “perfil”, o que seria o mínimo a se esperar?
Por tudo, posso dizer que isto é o resultado da fragilidade humana (daquela que cede ao primeiro desejo da carne); mas, felizmente, louvou-me de minha própria atitude, eis que, com lampejos espirituais frequentes, tudo relevo, tudo perdôo, pois sei que o quinhão de cada um a Deus pertence.

FIM

terça-feira, 17 de junho de 2008

Aqui se aprende a defender a Pátria


O ano era o de 1978. Sol escaldante e calor de matar refletido no brilho peculiar do asfalto interno do 25º Batalhão de Caçadores (25º BC), em Teresina, capital do Estado do Piauí. Nesse clima extremamente pouco aprazível, estávamos nós, recrutas pela obrigação legal de se servir o Exército Brasileiro quando se completa os dezoito anos, na base da “ordem unida” e metidos em pesadas fardas, aprendendo a marchar, respeitar os superiores e defender a pátria – aliás, quanto a essa defesa, sua intenção era massificante, pois, no muro alto que delimitava essa caserna, estava escrito, em letras de um tamanho suficiente grande a se notar a uma distância razoável, a seguinte frase: aqui se aprende a defender a Pátria.
Como se sabe, o indivíduo fardado é conhecido geralmente pelo nome de guerra, representado pelo sobrenome (se o prenome for bastante comum) marcado em cima do bolso superior esquerdo da gandola, ou por um número, este, usado geralmente nas chamadas de controle interno feito pelos superiores que, quando gritavam, o recruta devia responder gritando o nome de guerra. Meu primo consagrou-se no meio da recrutada como sendo o soldado 605, mas que, na análise fria do seu físico de 58kg espalhados numa estatura de 1,70m, talvez, com maior critério na seleção dos recrutas, o mesmo pudesse ter sido dispensado por excesso de contingente – assim não foi, e o massacre psicológico durou, exatos, 365 dias.
É bem verdade que o soldado 605, apesar de sua discordância com a metodologia utilizada pelos militares para se “ensinar a defender a Pátria”, principalmente pelo constante apelo às humilhações, ainda assim, ao término de sua obrigação militar de um ano, saiu laureado com o “diploma de honra ao mérito”, título consagrado àqueles recrutas que não tinham cometido nenhum ato de desrespeito ou indisciplina que possibilitasse a imposição de um castigo – em 2008, portanto, trinta anos depois, se perguntassem ao exemplar soldado 605 sobre a utilização do referido diploma, a resposta seria única:
- Serviu-me tanto quanto o título da Rainha da Inglaterra!
Meu primo, soldado 605, costuma lembrar que seu maior sofrimento no exército não foi o físico, apesar de não ser nada prazeroso a “ordem unida” no calor de 40 graus, as marchas de até 56km, as guardas durante vinte quatro horas na guaritas etc, mas, o constante modo humilhante de se fazer valer a hierarquia militar. De lucro mesmo restou somente a habilitação da carteira de motorista, cujo exame não passou de um passeio no jeep militar, em linha reta, num trecho, ida e volta, de 50m – e só!
É fato que freqüentemente nos dirigíamos à zona rural do Município de Caxias (MA), aonde praticávamos o exercício de aprendizagem de acampamento, tiro e sobrevivência. Em um desses dias, por volta do meio-dia, correu o boato de que a Madalena estava em campo:
- Quem?
Perguntou o meu primo.
- A Madalena. Aquela que costuma freqüentar os arredores do quartel em busca de favores íntimos dos que lhe cai na graça...
- Não é possível! Como ela conseguiu chegar aqui, se estamos a 18km distantes de Teresina, praticamente no meio do mato?!
Confessamos coletivamente, eu, meu primo e o resto do pelotão que tomou conhecimento do fato: até hoje não sabemos como a Madalena chegou ao local em que nos encontrávamos, mas chegou, e fez a “festa” daqueles que a encurralaram no mato.
O boato se espalhou, chegou aos ouvidos daqueles que a conheciam, e estes correram mato adentro a procurá-la; encontraram-na e trataram de fechar o acordo, a contra gosto daquela, de como a satisfação pessoal íntima de cada um do pelotão se daria. Ao que nos lembra, éramos, naquele momento, creio, em torno de quinze recrutas, portanto, grupo suficientemente grande para não se chegar ao comum acordo de quem seria o primeiro – por lógico, não houve concordância e instaurou-se o conflito.
Apostando na sorte, ou, quem sabe, no suposto fato de que talvez sua aparência lhe fosse favorável, o soldado 605 apontou a idéia de que a própria Madalena escolhesse seu recruta número um, vale dizer, aquele que “abriria” o caminho para os demais. A par dessa idéia, e sabendo que fora disto somente a força física de todos contra todos poderia impor uma vontade pessoal, enfim, a recrutada assentiu peremptoriamente.
Perfilou-se a recrutada na parte inferior de um dos lados de um pequeno morro, enquanto a Madalena, do alto desse morro, passava a vista sobre a fileira dos recrutas à sua frente; ia e voltava com os olhos sobre a cara suada de cada um e, com um sorriso maroto inicial, apontou:
- É tu.
Escolhido, o soldado 659 subiu o pequeno morro, chegou ao seu cume e desceu até o outro lado, claro, carregando a Madalena... Não se viu ou ouviu absolutamente nada, mas, menos de dois minutos depois, apareceu, mais suado do que nunca, o soldado Campos, e, logo em seguida, a Madalena com seu olhar disposto a escolher outro recruta...
Pensava o soldado 605:
- “Agora é minha vez!”
Na segunda rodada de escolha, a Madalena preteriu o soldado 605 e outros treze, escolhendo, desta feita, o soldado 597, este, malandro por excelência, porém, segundo se soube posteriormente, já era um velho freguês daquela...
Sobe o recruta, a Madalena no cume, descem e escondem-se no outro lado do morro, se divertem e voltam suados...
Nas idas e vindas da Madalena e seus recrutas satisfeitos, morro acima e morro abaixo, morro acima e morro abaixo, criava-se à expectativa de quem seria o próximo... Meu primo, ansioso para subir e descer o morro, ao ser apontado pela Madalena, teve que se contentar em ser apenas o sétimo da vez, o que lhe permitiu usufruir um corpo mais que suado, mais que usado e mais que lubrificado...
A verdade é que a Madalena suportou, agüentou o pelotão inteiro, é claro, sem poder esconder os malefícios causados pelos derradeiros...
Ocorre que o boato da presença da Madalena no acampamento não foi privilégio unicamente dos recrutas, pois os superiores (cabos, sargentos e tenentes) também tomaram conhecimento de tal fato, o que resultou, como castigo aos recrutas, várias sessões extras de exercícios físicos com um rigor nunca visto, a exemplo de polichinelos, apoio de frente, corridas, subidas e descidas de morros, respostas aos gritos das perguntas dos superiores etc, e, diga-se, tudo isto sob um sol de rachar o quengo e após um almoço pífio feito às pressas e em pé...
Pense aí o que uma quenga pode fazer para satisfação dos desejos mais animalescos dos homens, digo, dos recrutas!

FIM

quinta-feira, 12 de junho de 2008

TV A CABO - Vejam até que ponto nós chegamos

A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), entidade criada para organizar o setor de telecomunicações no Brasil, editou a Resolução n.º 488, de 3 de dezembro de 2007, com a intenção de regulamentar os serviços de TV a cabo no País, cuja data de início de validade da mesma seria 2 de junho de 2008, portanto, exatos seis meses após a sua publicação, o que permitiria um tempo bem razoável para adequação das prestadoras desses serviços e das condições essenciais sobre alguns pontos considerados discutíveis, a exemplo da gratuidade do ponto-extra, principalmente, claro, pelo lado das prestadoras desses serviços.
Pois bem. Passados os seis meses previstos para entrada em vigor da dita Resolução, eis que quando nós, consumidores, estávamos almejando usufruir da gratuidade do ponto-extra da TV a cabo em nossas casas, o Conselho da Anatel decidiu pela suspensão temporária, por dois meses, dos artigos 30 a 32 da mencionada Resolução, justamente os que tratam do ponto-extra, e pasmem, com a justificativa para tal decisão sendo a da impossibilidade do consenso quanto à interpretação desses dispositivos do Regulamento pelos diversos interessados envolvidos. Ratifico: foram seis meses para que se chegasse a essa falta de “consenso”.
Ao tempo das decisões judiciais que nos favoreceram, exatamente aquelas que motivaram à edição dos artigos 30 a 32 da Resolução Anatel n.º 488/2007, continuamos na mesma, ou seja, o Governo, vestido com pele da Anatel, se curvando aos interesses das prestadoras de serviços de TV a cabo...
Tenho uma experiência pessoal quanto a isto. Sendo assinante da Net Fortaleza, liguei, no início deste mês de junho, e pedi informações sobre o dito ponto-extra, ao que me foi informado que o ponto gratuito seria o chamado “ponto de extensão”, ou seja, você tem o direito de levar um ponto a qualquer outro ambiente de sua casa/apartamento, só que para você assisti-lo, por exemplo, no seu quarto, você terá que ligar a televisão do ponto central (por exemplo, a sala), isto é, você estará no quarto assistindo uma televisão e uma outra deverá também está ligada sem que ninguém esteja olhando para ela – é este o ponto gratuito que temos direito, à luz das prestadoras de TV a cabo, claro. Em resumo apertado: gastaremos energia elétrica dobrada para “curtir” um ponto gratuito!
Penso que não se precisa de um conhecimento avantajado para se constatar tamanho absurdo, mas, ao que parece, a Anatel está quase se curvando aos interesses privados das prestadoras de TV a cabo, pois só com muito esforço haveremos de criar uma nova expectativa positiva sobre essa tacanha demanda.
À propósito, na mesma decisão que redundou na suspensão dos mencionados artigos (vide Nota à imprensa, publicada no site da Anatel em 06/06/2008), o Conselho Diretor resolveu “de forma a preservar os direitos do consumidor previstos no Regulamento,” suspender “a possibilidade de cobrança por serviços relativos ao ponto-extra (instalação, ativação e manutenção da rede interna, especialmente)”, portanto, se não estou cometendo nenhuma interpretação estranha, creio que nestes próximos dois meses tenho direito ao ponto-extra (o verdadeiro, não o de extensão) totalmente gratuito, inclusive com relação ao valor da instalação. Assim, alô Net Fortaleza, quero meus pontos-extras gratuitos para hoje!