quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Ao Cineas Santos

Como disse em postagem anterior (e como objetivo do próprio blog), o mesmo seria unicamente para publicação de algumas coisas literárias inéditas; entretanto, a exemplo da última postagem, lembrei-me do meu amigo Cineas Santos, blogueiro do "Jornal O Dia"(Teresina - PI), piauiense dos cafundós de São Raimundo Nonato, que, com propriedade, sintetizou o uso da crase da seguinte maneira:
"O amor parte à porta,
E tudo é festa.
O amor bate a porta,
E nada resta."

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Autopsicografia

Era objetivo deste blog indicar que o mesmo se restringiria a apresentar fragmentos literários (se assim podemos considerar os escritos que aqui constam) inéditos, entretanto, o cotidiano e a intenção de mérito (aquele mais do que este) por trás de cada uma de suas criações me fez amparar no vaticínio de Fernando Pessoa (Autopsicografia), que reproduzo a seguir, e que comungo, integralmente, nas linhas e entrelinhas.

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Alter ego

Meu alter ego emudeceu
De tanto medo do que não veio a ser
E o infinito que foi ou é...
Ainda teme o por vir
Que não pode ser...
E nunca deixará de existir.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Ao meu alter ego

Um dia, uma emoção.
Tudo passa - o tempo,
As coisas do coração.
Mas estas, por certo,
Marcas em nós deixarão.

Faz-se o encontro.
Resgata-se o tempo
E resta, velado, no coração,
Quem sabe, a dor
Da paixão em ebulição.

Que me diz, meu alter ego?
O tempo passou, marcou...
Atrevo-me a dizer:
Não marcou, não passou,
Mas, simplesmente, enraizou.

É que quando te vejo,
Meu alter ego, o tempo,
Por mais que decorrido,
Não sarou, como desejo,
Este coração ferido.

Mais um dia, mais uma emoção;
Meu alter ego suspirou,
Disparou, imaginou...
E então, meu alter ego,
De onde vem tanto furor?

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A mulher de vida confortável

Das muitas pessoas que conheço, poucas têm a vida mais confortável do que minha prima. Sem muita riqueza material, muito menos ainda financeira, baliza sua vida pelo cotidiano mais que apropriado de uma cidade do interior: comer, bater perna na rua, fofocar e dormir – vale dizer, tudo sem qualquer tipo preocupação.
Uma pequena cronologia da vida de minha prima me permite constatar sua origem relativamente farta, principalmente se considero o padrão das necessidades supridas das demais pessoas que formam o universo das que a rodeiam.
De pais com alguma posse, na verdade, minha prima pouco ou quase nada teve que fazer para prover sua própria providência de subsistência, porém, reconheço que a mesma, presentemente e já desde uns doze anos para trás, vive às expensas de uma aposentadoria de um salário mínimo oriunda de sua condição de professora primária, embora, diga-se, sem nunca ter manuseado sequer uma barra de giz! Explico: fruto do famoso “jeitinho brasileiro”, quando na atividade de professora primária, minha prima sempre arrumou uma maneira, com a conivência de seus chefes, de nunca se ausentar da secretaria da escola em que lecionava, ou seja, já por essa época, ficavam os seus supostos alunos a verem navios...
É certo que minha prima soube escolher suas amizades; e isto noto quando levo em conta aquela residência em que, costumeiramente, cotidianamente e diariamente, ela busca suprir suas necessidades atuais de comer, beber, prosear, dar pitaco e, com certeza, de querer fazer as vezes de dona do pedaço...
Da porta da rua para dentro de sua casa não vislumbro suas atividades, mas permito-me imaginar a trivialidade de suas ações: acordar, levantar, assear-se, arrumar-se e pronto – rua. Vejo-me vendo-a, na sua pisada levemente despreocupada, em direção à sua “menina dos olhos”, parada obrigatória para suas três refeições diárias principais (café, almoço e janta), e, talvez, para as demais também (lanches matutino, vespertino e noturno). De longe, de minha calçada, dou um alô: “e aí, coroa véia!”, e arrisco, contido entre os meus parentes, um sussurro velado: “já vai, eh!” Em resposta, sempre, um aceno cordial.
Às vezes, da porta da casa do meu primo, sigo seus passos, observo seu deslocamento, destaco seu capacete castanho claro achatado e concluo que, como a mim, aos outros também saltam os olhos o estilo de vida dela. É que os comentários, maliciosos ou não, partem, inclusive, de seus próprios parentes de segundo grau, que não se cansam de apontar a leveza da falta de preocupação com o porvir de tal criatura.
De todo, apesar dessa leveza, minha prima tem suas virtudes, merecendo destacar aquela que lhe faz ser uma pessoa engraçada em face de suas “tiradas” embutidas com muitos palavrões ou coisas que o valham – creio que seja por isso que as pessoas que lhes são próximas não conseguem tê-la como um ser intragável; bem ao contrário, ao que sei, excluindo-se as escaramuças políticas que divide toda cidade pequena, sua aceitação é pacífica entre os seus conterrâneos.
Creio não ser uma vida elogiável, mas, com certeza, para alguns, invejável, afinal, quem, dentre nós outros mortais, não gostaria de acordar, passar o dia e dormir sem qualquer preocupação com o porvir, com o que comer, com o que beber?
Então, a quem interessar possa, elogia-a, inveje-a ou atire-a a primeira pedra!

sábado, 27 de setembro de 2008

Un jour dans ma vie


7:15h. O porteiro não me olha e não recebe meu bom dia; abro o portão e saio. Vejo as secretárias domésticas puxando os cachorrinhos das patroas – estas, por certo, “adotam” os animais, mas não assumem as responsabilidades da criação, delegando àquelas. Imagino que algumas secretárias, com o devido “banho de loja”, teriam melhor sorte, o que seria o azar dos porteiros, zeladores, bombeiros etc. Sigo meu caminho com a cautela de olhar para frente, para trás, e concluo não haver ninguém suspeito – é a precaução mínima de uma cidade grande, com todas as suas mazelas e os perigos em cada esquina. No cruzamento observo o trânsito, atravesso a rua e me encontro ao lado de uma escola infantil – penso que logo logo estarei em igual condição dos pais de agora, parando seus carros, descendo com seus filhos e suas mochilas e os entregando à educação privada, pois da pública há muito não se conta e nem se espera muita coisa. Vejo certa pressa das pessoas a pé (às vezes, a minha própria) em direção às suas obrigações, e, no trânsito, os mais apressados ainda, tentam, por falta de educação automobilística, "empurrar" os carros da frente com o dedo na buzina, já então, antecipando a chegada do estresse que o acompanhará no resto do dia. No meio do quarteirão e nas imediações dos locais mais concorridos, com a flanela na mão ou no ombro, sobressai a apropriação privada da via pública – por mais que entenda a situação econômica dessas pessoas, quase sempre me recuso, quando abordado, a bancar, por valor mínimo que seja, a oferta forçada desse tipo de “trabalho”. Continuo meu caminho. Condiciono-me a vê as coisas belas ainda existentes no percurso, a exemplo de um enorme e belo pé de caju, com suas folhas verdíssimas e já com a floração à vista, tempo em que aproveito para imaginá-lo daqui a dois meses, com seus cajus maduros amarelos, quem sabe, vermelhos... Chego ao cruzamento com uma avenida bastante movimentada e, na inexistência de semáforo, apuro meus sentidos para atravessá-la. Percebo um carrinho de venda de tapioca estacionado sobre a calçada, e há concorrência pelo consumo desse produto nordestino – observo o prazer das pessoas em saborear, por um real, um cafezinho com tapioca – é o café da manhã de cada um. Atravesso o cruzamento e, do meu lado direito, vejo um hospital, e imagino as dores, os sentimentos e as tristezas dos que lá se encontram, entretanto, sem descuidar de vislumbrar a alegria daqueles que retornam aos seus lares com saúde. Caminho a passos medidos, sem os medir. Ouço o barulho intenso dos carros e algumas buzinadas, apesar da existência do hospital. Aproveito a sombra imensa de várias árvores semelhantes aos oitizeiros e a brisa fresca que vem do mar, o que ameniza a caminhada de pouco mais de cinco quarteirões. Apraz-me um pouco notar a urbanização arquitetônica recente da cidade, com seus prédios de lojas e apartamentos cada vez mais arrojados, diferenciados e bonitos, diga-se. Percorro mais um quarteirão, me aproximo de outro cruzamento movimentado; espero, fiscalizo a vizinhança (nada suspeito), olho com atenção, meço a distância do carro mais próximo e me aventuro na travessia, sem problemas. O prédio do local de trabalho já está à minha vista, e meu estado de espírito e consciência crítica denotam-lhe o sentido do dia: às vezes, como um local de reputação a se destacar, outras, um simples elefante branco. Ouço o barulho de alguém gritando, assobiando, gesticulando e sinalizando, e, sem maiores dificuldades, o identifico como outro dono de quarteirão a querer “pastorar” os carros, desta feita, com mais afinco, mais propriedade e, com certeza, como mais “dono do pedaço”. Na esquina, alguém se achou no direito de explorar seu próprio meio de vida comercial, sem o patrocínio ou permissão do Poder Público – na bodega “móvel” encontram-se alguns tipos de salgadinhos, de sucos e de refrigerantes, além, claro, do café e do leite, e, ao que parece, existe freguesia fixa. À frente da entrada do prédio, olho o relógio e constato a precisão de minha obrigação, além daquela que me faz ser identificado por um crachá para adentrá-lo. Quando não necessito de dinheiro, vou direto ao elevador, dou bom dia aos colegas e me sinto, sem explicação, um tanto quanto inconfortável relativamente à presença daqueles dentro do elevador. Chego ao quarto andar, abro a porta, dirijo-me à sala de trabalho, não sem antes abrir a pasta da freqüência, procurar meu nome e carimbar: 7:30, 11:30, 13:30, 17:30, rubrica. Confesso: no tempo necessário a fazer esse carimbo, meu mundo gira em torno de perguntas atormentadoras, a exemplo de, por que isto, para que isto, é isto mesmo o que quero, isto farei amanhã novamente,... Sem respostas, acomodo-me à minha mesa. Os colegas chegam e com eles os papos de cada dia. Alguns dos colegas, comedidos; um outro, de alto e bom tom, não se cansa de usar a primeira pessoa para exaltar seus feitos presentes e passados, mas, nem por isto, deixa de ser uma pessoa bastante significante; um outro, esqueço. Passa o tempo, às vezes trabalho, outras, nem tanto...
11:30h. Deu minha hora de almoço. Desço. O desconforto do elevador continua me sendo presente – preferia descer sozinho ou, no máximo, com pessoas com bastante afinidade. Guardo o crachá. Sigo em frente. O cotidiano da rua continua sem muitas alterações, mas noto a pressa acentuada das pessoas, o trânsito intenso e o calor de um sol de 38 graus centígrados, amenizado, na sombra, pela brisa marítima alencarina. Retorno aproveitando as sombras dos prédios e das coberturas improvisadas dos pontos comerciais. A sombra dos oitizeiros refresca meu corpo. O carrinho de tapioca já não se encontra na esquina. Com o porta-malas aberto, um carro apresenta suas variedades alimentares para um almoço rápido e barato, mas sem que se possa comprovar sua qualidade e higiene – é um modus operandi de sobrevivência, fruto da falta de emprego formal. Os flanelinhas continuam alugando as vagas públicas. Na escola infantil os pais esperam a saída dos filhos, estes, pelo lado de dentro da escola, esbanjam energia aos pulos, gritos e brincadeiras. Aperto a sirene, entro.
13:15h. Apesar da preguiça latente, dirijo-me ao segundo tempo do trabalho, sob um sol escaldante. Minha preocupação passa pela minha própria vizinhança, por isso sigo observando os transeuntes das proximidades – nada se apresenta a merecer desconfiança. A escola infantil permanece com sua atividade normal: crianças chegando, brincando, correndo, gritando. O sol é abrasador e o vento, na sombra, é fresco e ameniza. Os flanelinhas agem, se apresentam e esperam um trocado, ainda que não solicitado seus préstimos. O pé de caju me enche os olhos e dá, sob suas folhas, guarida aos transeuntes que retornam ao trabalho. A avenida continua com tráfego intenso, o que requer mais atenção na sua travessia. Atravesso e me vejo caminhando, por pouco mais de cem metros, sob a dádiva das sombras dos oitizeiros. Espero o sinal fechar, mas, algumas vezes, não tenho paciência para tanto, e, correndo, cruzo uma rua, tento desviar do sol apressando o passo e procurando a sombra dos prédios, mais uma vez. Entro por outra rua e avisto o prédio do local de trabalho. Apresso as passadas para atravessar uma rua movimentada, mas os meus olhos estão nos carros vindo em minha direção. Chego do outro lado, são e salvo. O flenelinha “dono” do quarteirão encontra-se abrigado na sombra, à espera de seus “clientes” forçados.
Adorno meu pescoço com o crachá, entro, dirijo-me ao elevador e subo pelo elevador com o mesmo sentimento inconfortável. Aproximo-me da porta da sala de meu trabalho; está trancada, embora com um servidor assistindo televisão pelo lado de dentro; uso minha chave, abro e dou um alô ao servidor. Sento à minha mesa, acesso à internet e vejo as últimas notícias do Brasil e do mundo. Trabalho. Meus colegas chegam, conversam e trabalham também.
17:30h. Enfim, o dia passou. Desligo tudo e sigo o caminho da saída, do elevador, da rua. Já não existe mais o flanelinha agitado, buscando seus “clientes”. Na rua a brisa é fresca, a caminhada, sob esse ponto de vista, é prazerosa, mas continuo, na proximidade da escuridão, a ligar minhas antenas quanto aos transeuntes suspeitos. Percorro a avenida movimentada com a acuidade de sempre. As pessoas parecem cansadas, e os motoristas, por qualquer segundo parado em face do carro da frente, acham que a buzina resolve tudo. O local do carrinho da tapioca deu lugar ao carrinho do “churrasquinho de gato” – nova freguesia circunda o vendedor. Ao passar pela escola infantil imagino que as crianças de hoje, como as de outrora, são o futuro de qualquer país; aproveito para abrir um sorriso para algumas delas, que, ainda com energia, esperam seus pais. Atravesso a última rua, aperto a sirene do prédio, entro e fecho a portão. C’est un jour dans ma vie.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Falso "arrastão" no Iguatemi




Em Fortaleza (CE), domingo, 14 de setembro de 2008, final da tarde, início da noite, no Shopping Iguatemi, houve uma tremenda correria, que se assemelhou ao que conhecemos hoje, modernamente, por “arrastão”.
Para quem nunca ouviu falar em “arrastão” (o que é pouco provável tal inocência), resume-se: trata-se de uma situação em que um bando de malandros, vagabundos ou ladrões resolvem promover uma série de roubos ou assaltos simultâneos aos transeuntes que se encontram às suas frentes, ou seja, vão atacando, depenando, roubando ou assaltando tudo ou todos que encontram no seu caminho.
Alguém, durante a correria, deve ter gritado: “arrastão! arrastão! arrastão!”
Nesse momento, o caos se instalou. Gritos e correria para todos os lados; buscava-se, como proteção, algum abrigo, e sobrou para as lojas...
Pois é, com toda segurança de um shopping center, a exemplo do referido acima, mesmo assim não foi possível controlar as pessoas que corriam em direção às lojas, e algumas destas, ao se depararem com o movimento assustador daquelas, imediatamente cuidaram de cerrar suas portas, mantendo presos os que lá se encontravam e impossibilitando aos de fora entrarem.
Conseguiram os seguranças, tempo depois, acalmar a situação.
Sondando-se a respeito do início do movimento, foi dito que tudo começou com uma discussão dentro de um dos cinemas do shopping, em que um dos briguentos sacou de uma arma e, a partir daí, dar para se imaginar o efeito produzido nos cinéfilos que se encontravam nas imediações dessa pessoa com a arma em punho: um corre-corre tremendo, um salve-se quem puder...
É interessante como a imprensa local (falada, escrita e televisada) se mantém num silêncio sepulcral a respeito de tal fato. Ninguém viu, ninguém sabe, ninguém pode escrever nada, ou seja, isto não é notícia.
Acredito que deve haver algo de podre no seio desse poder econômico dominante, algo que nos impede tomarmos conhecimento dos fatos quando estes acontecem em locais considerados “vips”. Ao contrário, quando um fato semelhante ocorre numa quitandinha de ponta de rua, numa bodega de um bairro pobre, ou numa zona comercial de freqüência humilde, pronto, é manchete do noticiário radiofônico e televisivo do dia e da mesma noite, e, na manhã seguinte, estampa a primeira página dos jornais, sem qualquer restrição de endereço, fotos, entrevistas etc.
E a imprensa se vangloria de ser livre – já captei: livre para noticiar o que lhe interessa; no caso em tela, com certeza, não interessa (principalmente, claro, a quem patrocina o interesse)!
Então, vamos às notícias da periferia!

quarta-feira, 3 de setembro de 2008


Eis a versão desenhada do filho feito pelo próprio pai.

Não tenho como, com palavras medidas, incontidas ou repetidas, traduzir tamanho sorriso...
Esse sorriso espontâneo, de um ano e nove meses, por si só, se basta.

Amor contido

Ah, quanto amor desejado,
Quantas tentativas frustradas...
No quarto, uma rede, uma cama.
Na cabeça, o desejo de quem ama.
Meus olhos a porta vigiava,
Minhas mãos a acariciava.
No receio da descoberta iminente,
O amor permanecia latente,
E tentávamos ser felizes
Ainda que descontentes...

Dúvida

De repente é amor?...
Alguém planejou, mas não revelou.
Nem percebi... e senti...
Um amor não escrito,
Mas lido... por mim... por ela.
Um amor que se foi
Sem ter chegado,
Momentos raros
De um ser apaixonado...
Com poesia e fantasia,
Com verdades e olhares
De insistência e teimosia.
De namoro, não passou,
De harmonia extrapolou...
Faltou audácia, mas não ternura
Teve paixão, sem amargura...
E é eterno...ainda dura!

(Obrigado, meu alter ego)

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Os poetas

Deveriam escrever em cores,
Os poetas que falam de amores.
Deveriam escrever forte,
Aqueles que falam de morte.
E não deveriam escrever,
Os que não sabem viver.

(Obrigado, meu alter ego)

Jornada

Os meus passos são curtos e raros
Para percorrer todas as areias
Das praias daqui...
Mas os meus braços já bastam
Para nadar todo o oceano
De ondas que me levam a ti.

(Obrigado, meu alter ego)

Pensar...

Penso o que vivo...
Queria poder viver o que penso.
Mas a vida é muito simples,
E o meu pensar é muito denso.

(Obrigado, meu alter ego)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Os sapatos debaixo da cama


O ano era o de 1996. Meu primo, sem maiores preocupações como a vida, usufruía uma posição econômica privilegiada, eis que, sem os grilhões de uma vida marital, e no exercício de um cargo público com status de carreira típica de Estado, recebia mensalmente algo em torno de quarenta salários mínimos.
Por certo era um excelente salário e, ainda que meu primo vivesse em apartamento alugado, mas pelo fato de não beber e nem fumar, sobrava-lhe o suficiente para adquirir o que o capitalismo (selvagem, diga-se) lhe oferecia: produtos de marcas, claro, mas supérfluos, com certeza.
Na esteira das sobras mensais, respaldado na falsa ilusão do rendimento da poupança, e enquanto passeava em um shopping center, meu primo não conseguiu resistir a uma promoção de venda de carro novo e, assim, comprou seu segundo automóvel zero km, mesmo já tendo um outro com pouco mais de um ano de uso.
Às suas despesas rotineiras juntou-se àquela proveniente do asilo dado a uma conterrânea, cujo interesse particular era o de trabalhar para tentar alçar vôos próprios.
Por essa época, meu primo, sem motivos que o impedissem de voar, constantemente era requisitado a fazer viagens a trabalho em outras cidades do País, tempo em que, solícito, cedia seu carro mais velho (um ano e pouco de uso) à sua conterrânea, que o utilizava, com zelo, para os fins que desejasse.
Pois é, a conterrânea sabia usufruir as benesses do meu primo: curtia o carro cedido da maneira que lhe aprouvesse e, de vez em quando, surrupiava a chave do carro novo para ir trabalhar, ou sabe lá Deus o que mais. Aliás, quanto à utilização do carro novo para ir trabalhar, meu primo confessa que isto foi inovação da conterrânea...
Era fácil para o meu primo controlar, quando se ausentava, a utilização do carro novo, bastando para isto apenas fazer a devida anotação da kilometragem rodada, a ser conferida no retorno.
Entretanto, algo não batia com seu juízo quando o mesmo se deparava com seus sapatos e chinelos elegantemente desarrumados debaixo da cama, isto porque era sua praxe deixá-los sempre alinhados na borda da cama ou junto à parede. Mistério!
O primo, como quase todos os nordestinos, sempre recebia visitas em seu apartamento, e, um dia, uma delas soprou no ouvido dele que a conterrânea, muitas vezes, talvez cansada de dirigir, resolvia curtir melhor as comodidades do “próprio” apartamento.
Acuada na parede pelo meu primo-patrão, a secretária doméstica entregou o serviço completo: nas viagens do primo-patrão, a conterrânea se dizia, ao pé da letra, dona do pedaço, pois arrotava sua propriedade, recebia os amigos e namorados e, quem sabe, alegava aos seus o favor que estava fazendo em acolher meu primo como inquilino.
A conterrânea, cotidianamente, dormia em dos quartos que continha duas camas de solteiro e um colchão de sobra. Todavia, na ausência do primo e na presença dos namorados (um de cada vez, em dias diferentes, penso), era mais elementar poupar os esforços físicos inúteis de se juntar as camas, guardando-se essa energia para ser aproveitada na suíte com cama de casal, ar-condicionado, televisão, vídeo cassete e uma pizza entregue em domicílio.
Um dia, após a sessão amorosa, ela arrumou a suíte, limpou o banheiro, tirou as manchas de catchup dos aparelhos de televisão e de vídeo cassete, mas esqueceu de alinhar todos os sapatos e chinelos do primo que, quando não viajava, ali dormia...
FIM