segunda-feira, 2 de junho de 2008

Dinheiro fácil em Brasília

Às vezes, a busca de melhorias em nossa vida nos faz nômades entre vários lugares, assim, como que perambulando à procura de lugar ao sol. E isto se apresenta mais marcante ainda quando, dentre muitas situações, se estar na idade em que, primeiro, nossos pais nos direcionam a cortar definitivamente o cordão umbilical da sustentação econômica de até então, e, segundo, quando a constituição pessoal de família nos empurra para assumir as responsabilidades atribuídas àquela.
Lembro-me que minha situação pessoal enquadrava-se perfeitamente na segunda situação, eis que, fruto de um casamento não programado, mas abreviado pela desconfiança do porvir (aliás, diga-se, fato não confirmado – mas já era tarde), enfrentei a mudança temporária, porém cheia de expectativas, do deslocamento do calor de quarenta graus de Teresina para o clima seco e de umidade sofrível de Brasília. Fui, por assim, dizer, com a cara, a coragem e uns trocados equivalentes a um salário mínimo, não mais do que isso.
Tive, como era de se esperar, deslumbramento inicial pela arquitetura e plano urbanístico diferenciado da capital do País e, depois de algum tempo, constatei a reconhecida identidade do Distrito Federal como sendo, talvez, a única cidade do mundo em que não existem esquinas (pelo menos no que tange ao seu Plano Piloto, que é, comumente nas demais cidades, o que conhecemos como centro da cidade).
Do Plano Piloto, ao que me interessava, visitei seus pontos turísticos: a Catedral de Brasília, o Congresso Nacional, o Memorial JK, a Torre, a Rodoviária etc.
Decorei os trajetos e números dos ônibus, em essência, aqueles que partiam da cidade satélite de Sobradinho (24km distante do Plano Piloto), local em que me encontrava hospedado, e chegavam na Rodoviária – nunca me perdi ou peguei a “linha” errada.
Meu primeiro contato com uma possibilidade de emprego na Capital Federal, além daqueles vislumbrados nos concursos públicos, deu-se mediante anúncios de jornais. Li vários, grifei alguns e me dirigi ao endereço de poucos.
Um dia voltei de uma entrevista de emprego um tanto quanto aborrecido e enganado, pois, além do anúncio do jornal não ter dado qualquer indicação de que o emprego era relacionado a vendas, a entrevistadora tentou-me convencer a engrossar, como vendedor, as fileiras da empresa que ela representava – não sei se tal desiderato foi por conta da identidade de meu sobrenome com o de seus ascendentes distantes, aliado, quiçá, ao seu pieguismo, ou porque ela sentiu que um economista recém-formado daria perfeitamente conta do recado como vendedor. Não foi dessa vez que me tornei vendedor, aliás, com respeito aos que abraçam tal profissão, se fosse depender dela, eu morreria!
No mesmo dia em que retornei desenganado da malfadada entrevista, percorrendo o trecho entre a Catedral de Brasília e a Rodoviária, observei um grupo de pessoas ao redor de uma mesa improvisada – eram pessoas de aparências humildes, e, àquela hora, por volta das quatro da tarde, já bastante castigadas pelos efeitos da baixa umidade brasiliense.
Pois bem, quis a curiosidade que me aproximasse, tempo em que constatei se tratar de um jogo de aposta composto de três tampinhas, cujo mérito do ganhador estaria em descobrir, após vários deslocamentos frenéticos simultâneos das tampinhas, em qual delas se encontrava uma pedrinha colocada embaixo de uma delas. À primeira vista, não restava dúvida, o lance de se descobrir qual das tampinhas guardava a pedrinha parecia evidente, principalmente porque os olheiros que circulavam ao redor da mesa, além de apontarem, sempre sopravam, nos ouvidos dos interessados na aposta, aquela tampinha premiada.
Os olhos aguçados diretamente nas tampinhas, o assédio e assessoria descarada dos olheiros, bem como a possibilidade de um ganho fácil motivaram-me a tentar materializar a sorte, cuja visualização do acerto se apresentava cristalina. No meio tempo entre tirar a mão do bolso com o dinheiro e lançar-me à sorte, ainda tive a certeza do ganho sem esforço, sem demora, pois observei o sucesso de alguns em rodadas anteriores das tampinhas.
Com acuidade, mirei o jogo das mãos deslocando as tampinhas, fixei a premiada, reservei o dinheiro do ônibus, abri um sorriso de ganhador e apostei o restante.
Quinze minutos depois, o ônibus 513 (Plano Piloto – Sobradinho) já não me levava mais, porém o que restou de minha sorte. Sentado à janela, na poltrona rígida de material durável, olhava ao além, resmungando dentro e comigo mesmo. Do além, já noite, caí na realidade – é que os olheiros estavam mancomunados com o dono da mesa, pois após apontarem a tampinha premiada, imediatamente chamavam nossa atenção soprando ao ouvido e dizendo que iríamos ganhar, tempo em que o dono da mesa, com agilidade de um gatuno, mudava a posição das tampinhas sem que nós percebêssemos. É claro, o que havia observado como sucesso de alguns em rodadas anteriores à minha, na verdade, era o falso ganho dos olheiros...
FIM