segunda-feira, 2 de junho de 2008

A secretária, a dedada e o doce

Um dia de um ano qualquer perdido no tempo, à sombra de uma mangueira, mas com vento quente na cara, e traçando algumas comidinhas e bebidas sem muitas preocupações com a vida futura, estávamos jogando conversa fora com os parentes e amigos mais próximos.
Despretensiosamente a conversa fluía suavemente, com os “causos” de cada um se revelando a todo momento e, fruto das reminiscências passadas prazerosas, as gargalhadas se ouviam paulatinamente...
É curioso, mas entre os homens sempre existe uma estória de uma certa secretária doméstica que, extrapolando as suas obrigações caseiras pertinentes, atende aos ímpetos de uma curiosidade juvenil suscitada por conversas libidinosas e pelo próprio aparecimento crescente dos desejos sexuais pré-adultos.
Corria na cidade o boato de que a secretária moradora da casa de dona Maria era uma moça formosa, não bonita, mas com alguns predicados físicos comprovados pela silhueta de seu corpo. As línguas dos fofoqueiros mais afoitos espalhavam, nos encontros mais intimistas das conversas banais dos machos, que a dita cuja também gostava de se acoitar com aventuras sexuais com os sobrinhos de dona Maria, havendo, dentre estes, inclusive, aqueles que relatavam sua própria experiência vivida no escurinho de uma noite qualquer...
Um dia, influenciado pela propagação da boataria que rodava a cidade e, principalmente, pela inveja fruto da suposta experiência gozada por um outro parente seu, o Primo resolveu tentar se aventurar, de maneira sub-reptícia, pelas imagináveis curvas da secretária.
Aproveitando o cair da noite e a tranqüilidade proporcionada pelo sono dos demais, o Primo revelou todo seu trejeito de detetive ou de ladrão quando, assuntando o ambiente que o cercava, descalço e pisando em ovos, se dirige ao recinto em que, em sono profundo, dormia a secretária.
Era evidente que a escuridão reinante no quarto não permitia qualquer semelhança com uma penumbra, o que, se assim fosse, possibilitaria usufruir, ainda que de forma precária, também da imagem do então objeto de desejo do Primo. Restava assim, procurar desvendar aquele desiderato por meio do sentido do tato.
Deitada na rede transversalmente, dormia a secretária. Sono profundo, quiçá, sonhos vãs...
Ainda que protegido pela calada da noite, todavia sem se descuidar dos esmeros pertinentes à empreitada tentadora, o Primo se aproxima do conjunto “baladeira” e secretária, e, em face da improvável, mas possível, desconfiança de ser pego, digamos, em flagrante delito, treme as mãos e palpita fortemente seu coração.
Mais que aguçado o tato, sua mão toca na rede, descendo a partir do lado inferior do punho, entretanto, a princípio, sem identificar que parte da secretária sentirá primeiro. O coração dispara, o suor chega.
Sem janela, o quarto não é só quarto, serve de despensa; encontra-se abafado. A secretária não economiza na inspiração e na respiração. O cheiro circula preso dentro do quarto, o Primo sente.
Risco calculado, impetuosidade idem. Segue-se o interstício das descobertas.
Ao que interessava, deu sorte, pois aleatoriamente o tato da mão acusou os dedos do pé; deslizou pelo pé, tocou o tornozelo, subiu pela canela, passando pelo joelho e chegando às curvas lisas da coxa prolongada e bastante separada da outra; demorou, alisou, sentiu, tirou suas conclusões e partiu...
A secretária dormindo estava, dormindo continuou, embora com ligeiros movimentos que sequer demonstravam a intenção de despertar. Bons presságios.
Aventurou-se o Primo. Invadindo terreno pecaminoso, tateou os pêlos da genitália da secretária, que teimava em manter-se afastada de seu estado normal de vontade e consciência – permanecia, quiçá, sonhando.
O anonimato da noite, o sono pesado e o sucesso de até então impulsionam o desejo desproporcional do Primo, eis que, numa volúpia momentânea, com um dos seus dedos desfere golpe crucial em direção ao centro da genitália da secretária.
Ato contínuo, não há sono que resista. A secretária, sobressaltada e apavorada, e como desperta por um balde de água fria em plena frescura noturna, toma de surpresa o braço do Primo e diz:
- Menino, que diabo de saliência é esta?
O Primo, desta feita, totalmente desarmado e já sem as devidas vantagens que o levaram até o momento imediatamente anterior àquela momentânea volúpia, saiu-se com a simplória resposta:
- Maria, aonde está a lata de doce de Buriti?

FIM